quinta-feira, 9 de maio de 2013



Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.
                                                                                                      Virginia Woolf



Rene Magritte



Eric Oriol, um anónimo como eu,  diz sobre esta canção:

"... Sometimes, we need to realize that finding somebody who loves us is just as important as finding that imaginary person who we believe will take us to love heaven. Respect , trust and loyalty put together are worth more than love any day in my book..."




The Eagles





A Roda - Parte 1
3.Continuação



Irina Karkabi

Joana estaciona o carro e às oito em ponto entramos no restaurante. Reparo que o olhar dela brilha e que, disfarçadamente, procura alguém que não está. Júlia acena da mesa onde se encontra sentada. Não parece ter cinquenta anos. Os olhos, hoje azuis escuros, condizem com o conjunto turquesa e sorri. Escolhemos vinho da Herdade do Esporão e carne grelhada. A conversa caminha e salta por temas diversos, uns mais, outros menos fúteis, desde a actualidade política, a casos ligados à profissão, passando pelo apartamento que Júlia comprou depois da separação, do tempo que levou a adaptar-se à nova situação de divorciada, à falta de alguém com quem conversar e partilhar, da solidão, do sofrimento calado, dos medos que a assolaram, do frio nas costas quando se deitava do mesmo lado da cama, nunca ao meio ou do lado onde ele dormia, das reacções diferentes dos filhos e como conseguiu que estes passassem pelo divórcio de um modo o mais pacífico possível, do tempo que demorou a recompor-se do golpe, de como se colou à nova vida de solteira, terminando no assunto principal: o casamento de Joana. Afinal a madrinha é a Júlia e há certos pormenores que elas gostam e querem discutir. Na verdade, nem sei porque vim também. Teria ficado melhor em casa mas, por outro lado, quando estamos juntas estamos bem, sentimo-nos mais fortes, mais apoiadas, mais seguras,  e acabamos por nos habituar às singularidades e diferenças umas das outras. São estas que nos aproximam. A conversa aborrece-me um pouco e acabo por divagar, durante segundos apenas pois Júlia não resiste:
- Por favor Joana, casa com separação de bens. É o melhor que tens a fazer. Repara no que aconteceu comigo. Ele, com as suas míseras traições, levou-me metade de tudo o que era meu.
- Não significa que aconteça o mesmo com a Joana, digo, ou que os homens sejam todos iguais.
Mentira descarada, palavras falaciosas, nó que se atravessa na garganta. Não há psicanálise que cure esta vontade de batalhar inutilmente contra a maré, de iluminar as ruas escuras. O culpado é ele, por me sentir sempre assim, por não ser capaz de parar, por não passar duas horas por dia no ginásio, por não conseguir começar uma relação, que acaba sem ter começado. O medo de ficar exausta e cega, de não ver os sinais, da cabeça a ferver, das notícias tristes.
- Não sejas ingénua, Ana. Acorda para a realidade. Este é um mundo de homens, feito por homens, para os homens. As mulheres, algumas, começam agora a despertar. E a realidade é que os homens têm no sangue o gene da traição. Mais tarde ou mais cedo, ela acontece.
E insiste.  
- Joana, vais casar-te, portanto prepara-te para te sentires enganada e traída.
- Não digas isso, Júlia. Nem todos os casos são como o teu, digo.
Mas são. Vontade de dizer que são, mas não digo. São como o dela e como o das outras. Vontade de destruir algo, mas não faço. Vontade de requintadamente fazer mal, querer que chorem, que amaldiçoem o dia, que saibam que é tempo perdido. Eles vão, partem de uma maneira ou outra, partem sempre, ficam as culpas intermináveis, as memórias doces, doentias, as flores brancas nas campas. …

(continua)
Maria Luís Koen

terça-feira, 7 de maio de 2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Roda
1ª parte

Danielle Duer


3.
JÚLIA
O “Froscas” é um restaurante típico, bem situado, numa zona central da cidade, famoso pelas suas noites de fado e de canções, às vezes modas, nunca esperadas, vindas de quem lá aparece para comer. É discreto na decoração tipicamente alentejana e também discreto na iluminação e até na loiça que usa, toda de barro. Tudo está sempre bem confeccionado, a doçaria é excelente, os empregados q.b. de simpatia. Foi comprado pelo engenheiro Ruivo, homem moreno, com bigode muito português, por quem a Joana se apaixonou numa noite de comes e bebes depois de um caso que no Tribunal lhe dera muito trabalho mas que acabara por conseguir a favor do seu cliente. O Ruivo, como tantos outros, não conseguiu resistir ao charme um pouco sensual e louco de Joana e, nessa mesma noite, depois de várias ofertas da gerência da casa, acabaram os dois na mesma cama e no seu apartamento. O romance ia de vento em poupa e uma semana após a festa de despedida de solteira da Joana toca o meu telemóvel – era o Ruivo. Como explicar a um homem, português de bigode, machista o suficiente, para quem as mulheres são seres frágeis e difíceis de entender, pertença do macho e apenas isso, os medos e as paixões de Joana?
Vamos no carro, um Audi A4 azul escuro, e ela não pára de falar. Embora se diga que a mulher fala muito mais do que o homem – divago - de qualquer forma e sem abordar um tema especifico, nos Estados Unidos onde fazem estudos sobre tudo e mais alguma coisa, um professor da Universidade do Arizona investigou esta questão. Também no México, um grupo de psicólogos decidiu saber se é de facto verdade que a mulher fala mais do que o homem. Curiosamente ou não, o estudo veio provar que esta “tese” está errada e que, na verdade, há apenas uma diferença de sete por cento no que respeita ao número de palavras ditas pelos sexos masculino e feminino. Ora um tal número é pouco ou nada relevante em termos estatísticos. Joana não entrou nos referidos estudos, é certo, e a verborreia continua: casos do tribunal, pessoas que não conheço, dramas dos clientes, uma qualquer associação que quer formar, do vestido que vai comprar – Achas melhor branco ou creme, Ana? - da boda, do apartamento do Miguel e da mobília dele que ela detesta, do avô que está quase morto e só pensa em mulheres, da avó que doentiamente só pensa nele. Uma grande mistura de palavras, personagens, temas e situações que formam um grande novelo emaranhado, um todo sem nexo à primeira vista, mas que acaba por tecer um estreito fio conducente a uma teia cada vez maior, de que faço também parte, mesmo sem querer. E o ciclo vai-se repetindo, situações que já vivi, sentimentos que já partilhei, coisas em que já acreditei. Ela fala sem parar e eu não sei, não percebo este rumo, não acredito neste amor de que ela fala, nos sentimentos sem um fim, na felicidade sem limite. E as palavras dela batem no meu destino, que não sei qual é, talvez até saiba, na minha luta intima, do que esperei e não consegui. Do que esvoaçou e perdi.
- Tu decides, Joana. Da última vez dei a minha opinião e não houve casamento. E já agora, porque vamos ao Froscas? Achas que o Ruivo vai ficar contente por te ver? Sabendo que vais casar e que o deixaste há seis meses sem uma explicação que se perceba?
Eu sei que não sou bonita como a Roberta, nem sensual como a Joana ou inteligente como a Júlia, mas… de todas as minhas amigas sou a única com um pingo de bom senso. Daquele bem seco, sabido, conhecedor de ratoeiras, e de almas podres, bafientas, sujas e tristes. E o bom senso diz-me que ir almoçar ao “Froscas” neste Domingo com cheiro a trovoada não é uma boa escolha. Ana, a intuitiva, a falar. Tenta compreender em vão pois Joana já combinou e reservou mesa em nome da Drª Júlia Ribeiro, brilhante Juíza da terra.
Que diferente era a Júlia dos tempos do Secundário – demasiado tímida para se expor, demasiado introvertida para falar em público. E agora…
Júlia foi e é uma grande admiradora da Dra.Ruth Garcez, a primeira mulher juiz de Portugal. Por tanto a admirar, decidiu-se por frequentar Direito e depois ingressou no curso de formação inicial de magistrados, ministrado pelo CEJ - Centro de Estudos Judiciários, optando pela Magistratura Judicial, ao contrário de Amélia que optou pela Magistratura do Ministério Público. Sempre que a vejo sinto-me pequena. Júlia é brilhante e inteligente. Os olhos azuis, ora claros ora escuros, dizem tudo. Fala rapidamente e o tom de voz, apesar de calmo, é objectivo e incisivo. Tem uma vida boa, alguns sobressaltos, nada que não consiga superar, e três filhos adolescentes lindos. Às vezes fico a pensar como seria bom se eu tivesse filhos. Sobrinhos não é a mesma coisa. Será o relógio biológico? 
(continua)
Maria Luís Koen


domingo, 5 de maio de 2013



ask me 
           something
                               and
                                              I'll answer
                                                                  with
                                                                                      the truth




Aurea



OUSAR   VOAR




A primeira mulher piloto-aviador em Portugal


Mª de Lurdes Sá Teixeira
brevet - 6 de Dezembro de 1928









THE   EAGLES




The new kid in town



adoro



5


Artista: Glen Preece


Corro a casa toda
como se fora o mundo
em mim só imagens
de morte –

física
ele vai morrer
sim sei que um dia
só não quero que seja
hoje

interior
ele já morreu
sorrio de tê-lo morto
a machado e pouco a
pouco
mas foi como ter-me
morto  -  fogo
não suicídio.

Fecho os olhos
e só
estremeço.

Maria Luís Koen 




MÃE




Artista: Marisa Reve



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pétalas



Danielle Duer

5.
Sentia-se completamente desorientada.
Louca, desesperada.
Sem saber o que fazer.
Sem dinheiro no cartão, sem telemóvel, sem os números de telefone de ninguém, sem as moradas, sem nada.
Nada.
Sem carro ainda por cima.
Uma completa desorientação.
Foi assim que ele a deixou. A ela, parva, Francisca parva, que confiara cegamente nele. Confiara tudo: o coração, a alma, o dinheiro. Tudo. E agora não tinha nada. Nada excepto a raiva que emergia lentamente, a sobrepor-se ao desespero, a misturar-se com ele, a querer impor-se, a querer explodir, sair, abrir-lhe o peito para que ela chorasse, gritasse!
Ele saiu no carro dela uma manhã  e não voltou.
Tinha sido cruel e desonesto, totalmente horrível. E agora estava já em Setúbal, de certeza,  com a outra. Quis lá saber dela e da filha, das despesas no hotel, no que os pais diriam.
Pior que tudo é que o sol desaparecia e ela sem saber o que fazer, danada, triste, cansada.
 Cruel, falso! – gritava.
Como tinha conseguido fazer aquilo? Como? Deixá-la na praia de mãos a abanar, coração ao relento. 
Que diriam os amigos quando soubessem e a vissem desmembrada de afecto novamente?
Não queria que lamentassem esta falta de sorte ou que dissessem que o destino de Francisca era este. Este de acabar sempre abandonada, prostrada, limitada.
Queria tanto ter paz, sentir-se em paz, libertar o pensamento de toda a sujidade acumulada. Mas não conseguia. Não queria. Agora não. Agora estava de mãos vazias, de olhos vazios, de coração vazio. Agora estava imersa em falta de perdão, num lugar cheio de malmequeres brancos que não lhe diziam nada. Agora estava cheia de dor, uma dor calada e intensa que atravessava o corpo fraco, a boca inerte, as palavras que não saiam, o vazio dos olhos.
O mar, o cheiro a Verão, o barulho da água,, a filha a perguntar pelo pai, nada a fazia sair do torpor desgraçado que sentia, que subia e lhe apertava o pescoço. Esperou tanto que aquele momento não acontecesse, que não sentisse a perda, o abandono. E ali estava a cinza dos momentos que passaram juntos, o pó, o nada que sobrou.
Era já tarde quando o Miguel a encontrou sentada no hall de entrada do hotel.
A vida prega-nos muitas partidas - Francisca disse. Emprestas-me o teu telemóvel para fazer uma chamada?
E recomeçou outra vez do nada.

Maria Luís Koen







EVERYBODY HURTS

R.E.M.


When your day is long and the night 
The night is yours alone
When you're sure you've had enough of this life, well hang on
Don't let yourself go 
Everybody cries and everybody hurts sometimes

Sometimes everything is wrong 
Now it's time to sing along
When your day is night alone (hold on, hold on)
If you feel like letting go (hold on)
When you think you've had too much of this life, well hang on

Everybody hurts 
Take comfort in your friends.
Everybody hurts
Don't throw your hand. Oh, no
Don't throw your hand
If you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone

If you're on your own in this life 
The days and nights are long
When you think you've had too much of this life to hang on

Well, everybody hurts sometimes
Everybody cries
And everybody hurts sometimes
And everybody hurts sometimes
So, hold on, hold on
Hold on, hold on 
Hold on, hold on 
(Hold on, hold on)

Everybody hurts 
You are not alone






A Roda - continuação



Artista: João Alfaro


Ontem fui à festa de despedida de solteira da Joana. Joana, a louca. Trago do frigorífico um copo de leite frio, não me apetece comer nada. Não estou desesperada, não estou nada. É esse o problema, esta lucidez do nada de especial, do ninguém em particular, este lamurio contínuo do que não se tem, este caroço na garganta, que não passa. A visão da piscina redonda e azul lembra-me férias e descanso, fantasias e cansaços. Pouso o copo na mesinha verde da varanda, sento-me agastada. É bom estar aqui. Acho que ontem bebi demais… Tenho um fraquinho por Gin Tónico e abusei. É mesmo bom. A minha casa é a minha concha, a minha protecção,  embora não consiga tirá-lo da cabeça. Já passaram cinco anos e às vezes não durmo, a cabeça cheia de teias, memórias perdidas, andando pela casa até de madrugada, agulhas finas que se espetam, que magoam, difíceis de controlar. A escuridão dos óculos escuros, o cheiro do cemitério, a outra a chorar como eu. Há barulho na piscina, a que eu chamo, com alguma ironia, o meu lago. Um lago azul de onde partem ou chegam vários caminhos, mais precisamente oito, que levam aos diferentes apartamentos do condomínio redondo, como se de uma roda gigante se tratasse. Do lago chegam vozes de brincadeira, salpicos de alegria que condizem com o espaço. Fecho os olhos, saboreio o momento vivo, não tenho saída, não quero beber demais, não vale a pena arranjar uma razão à pressa para viver, para ser idiota em querer encontrar o verdadeiro amor, aquele que é eterno. Não existe, é história de príncipe encantado, cavaleiro montado em corcel branco. Suspiro com um certo desgaste, como nos dias em que não há trabalho e que, ainda assim, nos sentimos pesadas. Um peso doentio, que nunca deixa saudade, um pó que custa a limpar, um vazio de nada querer, nada fazer, nada poder.
Começo a estar cansada das festas de despedida de solteira da Joana. Esta é a terceira mas não é o terceiro casamento. Nem sequer o primeiro e não sei se ela vai ficar por aqui. Quando me telefonou nem imaginei que fosse mais do mesmo:
-Ana a minha festa de despedida de solteira é no próximo Sábado, no “Arriba”. Aparece cá em casa por volta das dez da noite. Depois conto, aparece.
A Joana sempre me conseguiu surpreender com as suas maluquices. Boa advogada, independente, mas com dois terríveis defeitos: falar demais e adorar homens. Sim, sempre procurou conquistá-los mas, conseguido o feito... acabava o romance, o amor, como ela diz. De facto nunca entendi bem este lado tão exageradamente sensual de Joana.
“O que queres Ana? Não consigo evitar, aqueles olhos verdes... aquela boca... aquelas mãos... quero tudo para mim, por toda a minha vida. Este é o tal, Ana.”
Quantas vezes ouvi estas palavras ou similares? Sorrio. A Joana não é bonita. É cor de chocolate de leite, baixinha e um pouco roliça, mas tem um charme e uma sensualidade felina que põe de lado qualquer mulher. Quando ela anda, eles olham. E quando ela fala... não conseguem evitá-la. Um perigo ambulante, como gostam de me confidenciar.  “Quando casar aquilo passa”, dizia-me em segredo a avó. “Eu também era assim. Até que conheci o meu homem e me perdi de amores por ele. Aos quinze anos fugi para a mata para me encontrar com um rapaz de quem muito gostava e só parei quando na Praça um homem me deu um tal encontrão que deixei cair as maçãs. Foi fulminante filha. Tiro e queda. Até ao dia em que ele morreu não quis outro homem”. O avô de Joana não era homem pobre, a herdade onde vivia era grande como ele, como a vontade dele, as viagens e as mulheres que tinha sem conhecimento da esposa, pensava ele. Mas a avó de Joana sabia. E sofria.  Minguava a olhos vistos, mas sorria. Anos e anos sorriu e dormiu com ele, amou-o cheia de dor, de desespero, de raiva. Amou-o de solidão, amou-o até um dia, seca de paixão, ele morrer. Talvez que a Joana tivesse herdado essa costela passional da avó, do avô as inúmeras paixões descartáveis, consideradas mais masculinas do que femininas. Por isso era muitas vezes criticada, em especial por colegas invejosos ou por mulheres mal amadas, mas ela somava e seguia. Como me dizia a avó:  “Enrolados num cordel chegam até Portel!”. Já teve namorados e noivos de todos os géneros e feitios. Mas todos com um denominador comum: sempre engenheiros. Poderia chamar-lhe fetiche e, quando abordo essa questão, ela ri e diz que não sabe a razão de tal tendência. Talvez porque goste de números, opostos a uma carreira de letras, como a dela. Para não variar, o futuro marido é engenheiro. Não, não sei como ela os conhece, só sei que se apaixona por eles e depois os deixa.
(continua)
Maria Luís Koen

quinta-feira, 2 de maio de 2013





         "A single dream is more powerful than a thousand realities."


TOLKIEN 
 foi-me apresentado por um amigo quando ainda não existia a internet:





inesquecível






quarta-feira, 1 de maio de 2013


A Roda - continuação


(Artista: Malcolm T. Liepke )


Na varanda larga e comprida tenho, ao meio, três vasos de barro, grandes e redondos, com malvas vermelhas cor de sangue e daquelas cor de luxúria e brancas também, misturadas em arrufadas que não me dão muito trabalho e ainda uma pequena mesinha em verga verde escura, com duas cadeiras redondas, também em verga da mesma cor, com almofadas grandes e fofas onde, por vezes durante a Primavera ou Verão, tomo o pequeno almoço ou, nas noites quentes, uma cerveja gelada. Da varanda partem grandes janelas, em todo o comprimento da sala, que criam luminosidade e ar também no Inverno, enquanto no Outono deixam antever com facilidade as nuvens escuras que se aproximam no horizonte, cheias de água ou granizo em dias de trovoada. É na sala que gosto de me estiraçar no sofá, de andar descalça, escrevinhar umas notas ou analisar os casos para o dia seguinte, ler. E é na sala que também gosto de praticar meditação transcendental, técnica que ao longo dos anos me tem trazido grandes benefícios. Na sala e em qualquer lado. Ao contrário do que muitos pensam, meditar não é pensar, reflectir, analisar, compreender, mas sim o oposto, é calar o que nos vai na mente e na alma, o que nos persegue mesmo sem querermos, isto é, é conseguir obter uma total calma interior, uma absoluta ausência, mesmo com os  pensamentos que teimam em aparecer, mesmo com os sons exteriores que nos assaltam. Difícil. Viajar de fora para dentro da nossa consciência é um caminho que aprendemos a trilhar com esta técnica. Não pensar nas vertigens alucinadas, não perguntar as coisas boas que vivemos, o vago que é, agora, sentir tudo e depois nada. Só assim me aquieto. Relaxo a mente e o corpo. Só assim me compreendo e me liberto. Só assim  passo da superfície agitada do oceano dos meus dias, à calma que me oferece a sua profundidade.
Maria Luís Koen
(continua)