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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


13.



Leonid Afremov


E deixo-me estar, muda no silêncio que a casa me proporciona. Preciso dele como do pão para a boca. A minha cabeça chega a parecer uma teia intricada, cheia de grossos e finos fios emaranhados, pensamentos entrecruzados, para cima e para baixo, em direcções diversas que me tiram muitas vezes a paz e outras tantas convidam a insónia a fazer-me companhia na cama. Umas vezes, é uma teia de captura, em que as supostas “vítimas” se colam a mim, ao meu pensamento, em que sugo e sou sugada num fino fio de cumplicidades;  outras, é uma teia de refúgio, em que o emaranhado da minha vida forma tubos em que me escondo e refugio; às vezes, é teia de cópula quando o quente interior busca  apaziguamento e outras teia de muda, quando o recomeço é gritante e necessário . 

Maria Luís Koen























13.

Art Annette Schmucker
- Claro que não. Adoro o meu Miguel. Casei com ele não por vingança mas um pouco por impulso, por paixão… O casamento é sagrado! Mas não esqueço o que o outro me fez. Foi um cabrão e disso não passa.
- Nunca ouviste dizer que “os traidores são colhidos na sua própria cobiça”? Esquece, Joana. Não merece sequer  que penses nele, não achas? Pensa no Miguel, o teu amor.
- No meu doce - e sorriu.
Adoro-o. Amei-o assim que o vi. O coração quase parou, o corpo num arrepio de tesão, um tormento que não sei explicar, um magnetismo que me deixou frágil e a flutuar, Ana. Ele faz-me sentir bem, quase em êxtase permanente. Quando estamos juntos só quero mesmo é cheirá-lo, saboreá-lo, comê-lo todo.
- Malandra que me saíste!
- Malandra eu? Sabes bem que gosto de sexo. E com o Miguel…parece que ainda gosto mais do que já gostava.
Joana ri de barriga cheia, de plenitude ou mera felicidade.
Quando ela saiu e fiquei novamente só, reli as palavras de Shakespeare, no livro que Roberta me oferecera como retribuição pela minha capacidade de ouvir e muita paciência. A minha vida preenchida pelas perdas e amores dos outros, desgostos, traições e sentimentos de seres imperfeitos. Uma roda em que, novamente, sou eu o centro para onde os raios convergem. É esse o meu karma? “E a minha roda está redonda ou toda torta?” penso, “Colorida ou mais a preto e branco?”.

O que faço aos intervalos em que sinto a boca seca?

Maria Luís Koen

quarta-feira, 7 de outubro de 2015


13. (continuação)


Anita Nowinska

O Ruivo não fizera mais do que trair a fantasia, sentimento escondido ou pecado muito desejado de Joana. Depois de uma noite de luxúria no apartamento que ela julgara dele, nem a lua cheia salvou a falta de romantismo,  quando desbocadamente lhe escapa “é pá, hoje são os anos da minha mulher!”.
- Mas há algum homem que diga isso a uma mulher??
-Vê tu o cabrão. Traiu-me o filho da puta.
E a conversa continua, sentadas no sofá da minha sala.
- Ninguém ama só uma pessoa na vida.
 -Quem nunca traiu, mesmo em pensamento, que atire a primeira pedra. Eu traí. Tu não?
Namorado atrás de namorado, noivos atrás uns dos outros, pecadora sem limites, Joana ainda doída pela traição do Ruivo, pela indignação e humilhação de ser a outra.
-Não, nunca traí.
-Não acredito. Está provado que os humanos são traidores por natureza.
-Provado?
-Há várias teses, algumas polémicas, sobre o assunto.
- Teses!! Tens cada uma!
- Olha, o  Dr.Stephen Emlen, médico, da Universidade Cornell , refere que nove entre dez mamíferos são infiéis.
- Quem é esse?
-Um médico, já disse. Este médico também afirma que o que é raro é a existência da monogamia.
- Muito raro mesmo!!! - E ri.
- Ele diz que existem dois tipos de monogâmicos: os de carácter genético e os de carácter social.
- Isto carece de mais bebida, não achas?
- Mas queres ouvir ou não?
- Pronto, não te zangues. Conta lá o que diz o médico.
-Emlen diz que, no caso da monogamia genética, a fidelidade entre parceiros surge como uma excepção.
- Sim?

- Sim, não brinques.  Ele também diz que no caso da monogamia social,  os parceiros estão juntos com o objectivo de procriar e criar filhos. 
- Isso é tudo para desculpares a atitude do Ruivo?
-Claro que não. Só te estou a tentar dizer que a fidelidade não passa de um mito.
-Mito?
-Sim, o mito criado na sociedade de que os filhos criados por pais não separados têm uma vida melhor e mais feliz. É mito. Apenas mito.
-Com mito ou sem mito, o Ruivo traiu-me. Não lhe perdoo.
-Espero que não tenha sido esse o motivo porque arranjaste noivo logo em seguida.
- Qual motivo?
-Um motivo ao gosto de Nietzsche que dizia que na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.



Maria Luís Koen















sábado, 3 de outubro de 2015



A Roda  

13.


awaiting miracles
Marta  Orlowska


 As reacções são diversas. E diferentes. Uns perdoam, outros fingem que não sabem, uns deprimem, outros matam-se, outros matam e outros vingam-se:  temos o exemplo do marido inglês que leiloou a mulher na internet quando soube que tinha sido enganado;  temos a mulher que decidiu vender tudo o que era do marido e ter alguns lucros;  temos o homem que, por vingança, vendeu duzentas fotos sexy da ex-mulher no eBay quando soube que esta o tinha traído com o melhor amigo;  temos a noiva italiana que, ao descobrir através do facebook que o noivo era um porco traidor, decidiu colar cartazes com a cara do desgraçado, agradecendo ao facebook; temos a australiana que fez um leilão virtual com as cuecas da amante do marido juntamente com um invólucro vazio de um preservativo “tamanho pequeno”;  temos a mulher que teve um caso com o padre da freguesia fugindo e casando com ele e outra que começou a coleccionar amantes secretos. Também há outro tipo de reacções: a mulher que colocou nas redes sociais “sou corno” e “tenho chifres” e a outra que enviou emails dizendo que ele tinha palitos; a mulher que se atirou da varanda, partiu a bacia mas não morreu;  o homem que atirou ácido à cara da namorada e aquele que inventou boatos pouco abonatórios sobre a mulher.
                                  Desespero
                                            Raiva e dor
                                                  Vingança.
    Traição não tem sexo
Nem nexo
                 Traição.

É disso que se trata.  As pessoas nem sempre falam, nem sempre dizem mas, muitas vezes, basta uma palavra para mostrarem o que não querem dizer. E eu finalmente apreendi a palavra que resume todas as reacções de Joana, desde a estalada na cara do Ruivo, o engenheiro, até ao rápido namoro, noivado e casamento com o Miguel, também engenheiro. As cartas reveladoras e silenciosas de Gabriela na sessão de tarot foram claras para ela e para mim. Não mentiram, não omitiram, um circulo magnético de verdade que penetrou, devagar,  em mim.
Nem todas quiseram expor-se ao mistério das cartas, ao risco de uma verdade muito escondida aparecer, à magia doída de algo que não se quer revelar, ao tesouro muito intimo que se quer esconder,  mas a Joana não podia recusar-se e, por isso, foi a primeira. No final ficou calada mas conheço bem aquele olhar e percebi, quase li, tudo o que a boca não disse.
Parvoíce minha não ter pensado que tudo advinha da traição, dura de engolir, que nos massacra todos os segundos quando aparece para nos perseguir os sonhos e a realidade também. Sonhos traídos são piores que qualquer dor. 

Maria Luís Koen




















terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

a roda



isaac  maimon


Perante o olhar curioso de todas, à excepção de uma,  baralha e parte as cartas, com a face oculta, e coloca-as em circulo, começando pela parte de cima à direita e rodando no sentido dos ponteiros do relógio. Dispõe assim doze cartas, mais uma no centro. Depois, vira-as sequencialmente, começando pela primeira, explicando que “esta dará o ambiente global do mês”. “A segunda”, esclarece, “sobre o mês  seguinte e assim sucessivamente, até ao fim dos doze meses”. E continua: “Depois de se ter virado e interpretado os doze arcanos, vira-se a carta que se colocou no meio do círculo, da roda. Esta irá dar-nos uma ideia geral do ano ou então do número de meses, quer estejamos em Janeiro ou noutro mês, fazendo assim um resumo dos meses”. Olhando para nós: “Se um dos meses estudados, ao ser comparado com o resultado dos outros, parecer mais estranho ou difícil de interpretar”, explica, “deve-se isolar essa carta  e fazer um lançamento especial, do género 'lançamento em cruz', para saber mais sobre esse período  que não se consegue interpretar com alguma precisão”. 
Estamos atentas à explicação de Gabriela que fala no geral sobre a simbologia e o significado de cada carta do tarot, o que , para nós, leigas no assunto, é complicado e difícil, chegando rapidamente à conclusão que, aprender tudo num só dia, será uma missão impossível. Assim, sugerimos um intervalo, que chegava para a primeira lição. O que queríamos mesmo era que  Gabriela nos lesse o futuro. Roberta peremptoriamente disse que nem pensar, não acreditava em futurologia e não queria sequer experimentar. Amélia concordou de imediato, seguida de Mafalda. Achei estranho, mas tenho a certeza que foi só para disfarçar. Demais conhece a bicha o seu futuro. Restava a dona da brilhante ideia, a dona da casa e Júlia, que não se negou. Afinal não tinha nada a perder, depois de perder o marido só tinha era que ver o que o futuro lhe reservava. Não querendo ser a primeira, aguardou expectante e com muita curiosidade que chegasse a sua vez. Gabriela foi clara nas exigências, que tinha que haver algum silêncio e concentração para além da vontade de cada uma das participantes. 

Maria Luís Koen

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Roda - capítulo 12



Helene Perdriat

12.
Somos sete aros numa roda que é a mesa da sala, pequena teia que dá para a piscina redonda do condomínio da Roda . Gabriela, a taróloga, refere a perfeição como curiosidade. Por exemplo, as cartas números quatro e três formam o par chamado Imperador - Imperatriz, o pai e a mãe, portanto a perfeição. E quatro com três soma sete. Disse também  que as cartas cinco e dois são o par Papa - Papisa, o par da espiritualidade . Número sete.  Depois,  que  a carta número sete é a Carroça, símbolo de cumprimento, realização. Gabriela continua dizendo que o sete é, assim, o algarismo do homem perfeito. Finalmente, antes de começar a sua lição sobre as cartas, acrescenta que “o sete representava também os sete estados da matéria, os sete graus da consciência, as sete etapas da evolução -consciência do corpo físico, da emoção, da inteligência, da intuição, da espiritualidade, da vontade e da vida - e ainda os sete pecados mortais, de todos conhecidos: Avareza, Inveja, Ira, Gula, Preguiça, Soberba e Vaidade” (sic). E sorriu:
- Tudo se passa no universo dentro de um ritmo septenário.

Maria Luís Koen

sábado, 19 de julho de 2014

Joana

A Roda - continuação

Gun Legler

Joana continua : 
-Estou impressionada convosco! Mas digo mais: o sete está presente em inúmeras histórias populares e lendas.
- Sim? Interessante. Dá exemplos!
- Por exemplo a história da Branca de Neve e dos sete anões.
Acrescentam:
- As sete léguas das botas do Pequeno Polegar.
-Pois é, formavam um grupo de sete rapazes.
- O sete possui um certo poder, é um número mágico. Para mim o sete está relacionado com a perfeição.
Mafalda fingiu estar boquiaberta e ligeiramente impressionada, apesar de não me enganar:
- Já vi que percebem de numerologia. Sabes muito sobre o número sete, Joana. E vocês também.
- Sei ainda mais – sorriu - mas agora quero apresentar-vos a Gabriela. Pedi à Gabriela que nos lesse ou nos ensinasse a ler as cartas.
Claro, só podia ser isso, pensei. Que treta. Isso ou uma reunião de tuppersex. Não sei qual a melhor. Para mim, nenhuma. Mas agora não posso fazer nada a não ser entrar no jogo, em mais uma brincadeira ao gosto de Joana. Uma brincadeira no meu apartamento, um pouco à minha revelia, o que me desagradou mais ainda. 
A invasão do meu espaço, das minhas coisas, dos meus objectos era quase a invasão da minha alma, do que eu sentia. Era isso que não perdoava a Joana. Que trouxesse duas estranhas, uma bruxa e outra bruxa, a minha casa. Perturbava-me isso, como depois disse a Joana. Não sei se ela compreendeu, até acho que não, é muito prática a minha amiga. Mas disse-lhe na mesma. Não quero que ela repita a gracinha. Não quero pessoas que não conheço na minha casa. Não quero abrir as portas a qualquer um. Não quero ser sugada de surpresa por olhos cor de violeta como fui sugada pelos dele. Não quero passar pelo mesmo, pela morte, pela ida à sepultura colocar flores e vir de lá a cheirar a mortos. Não quero voltar a isso, nem lentamente, não quero pensar nele – escondi a cadeado as fotografias amarelecidas pelo tempo, as saudades, a escova do cabelo, o pente. 
- Como calculam não podia ser na minha casa, que o Miguel não gosta destes assuntos e morando a Ana no número sete, achei brilhante ser aqui.
 
Maria Luís Koen



terça-feira, 10 de junho de 2014

a roda - continuação




Trish Laffrenere

O pensamento é interrompido pela campainha. Por sorte cada uma das minhas amigas traz um doce, uma bebida, nenhuma de mãos vazias. Um amontoado de casacos, luvas, cachecóis e malas no meu quarto, taças na cozinha, bebidas no móvel da aparelhagem, a confusão da chegada e de quererem saber a razão de ali estarem e da importância que tal teria para mim.
-Não sei. A Joana é que marcou isto tudo na minha casa. Sabem como ela é. Gosta de surpresas e a maior surpresa é que ainda não chegou.
O telemóvel toca.
- Está atrasada, mais dez minutos e já cá está.
Todas conhecemos os dez minutos de Joana, por isso atacamos o bolo de chocolate da Roberta e o abafadinho da Júlia enquanto pomos a conversa em dia. Passados três dez minutos, a campainha do número sete toca e eis a nossa querida Joana acompanhada de alguém que nunca viramos antes.
- Desculpem o atraso mas tive que ir buscar a Gabriela. Com ela somos sete.
Olhámos umas para as outras. A Joana sempre teve a mania, fixação, ou fetiche - mais um - por números. A tudo associava números e vice-versa, até nós tínhamos números. Não gostava de alguns, como o seis, e chegava a desmarcar compromissos quando o número não lhe agradava.  
-E o que tem sermos seis ou sete? Pergunta Mafalda, ainda novata nos gostos de Joana.
-Não sabes que o seis é de mau agouro e o sete é um número tradicionalmente cheio de significados e simbologias? É um número divino. Vou dar-te alguns exemplos. 
- Então é melhor sentarmo-nos… - disse eu, desagradada com tudo aquilo e ainda mais porque a bruxa estava na minha casa, coisa que eu queria evitar a todo o custo. E o que é facto é que a pimenteira murchou, como verifiquei no dia seguinte. Mas não podia fazer nada, o que me irritava ainda mais, pois mesmo que quisesse explicar, como o iria fazer? Sentia-me aleijada com aquela mulher na minha casa, a ver tudo com aqueles  olhos de bicho frio. Louca, diriam por certo, se alguma vez ousasse mencionar o que sabia. 
- Olha Mafalda, para mim o sete é um número muito especial. E vou dar-te vários exemplos do porquê desta minha convicção. 
Como se a bruxa não soubesse – pensei.
- Por exemplo, os dias da semana são sete por alguma razão, os planetas para o mundo antigo também são sete, existem sete sábios Gregos e sete graus celestes .
-E uma rosa, imagina, tem nada mais nada menos do que sete pétalas-  acrescentam as outras na risota.
 E Roberta diz:
-As cores do arco-íris são sete, e quantos são os pecados mortais?
- Sete -  respondem .
Cada uma acrescenta um ponto:
-As notas musicais são sete.
-Sabes quantas estrelas formam cada uma das constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor?
- Sete! Sete!
Já conhecedoras da sua paixão por este número, continuam e ajudam na festa:
- Sim, o sete é também é um número simbólico: simboliza as três virtudes teológicas.
- Pois é! A Fé e a …
- Esperança
- A caridade.
-E também há as quatro virtudes: prudência e temperança …
-Justiça e força.
- De acordo com a Bíblia o mundo foi criado em seis dias, sendo o sétimo, o dia do descanso.
- É verdade. É considerado dia Santo.
 E eu, para não me ficar atrás, não me tornar mal educada e gerar desconfiança, acrescento e repito as palavras de Simão no Evorahotel:
-O número sete é a chave do Apocalipse.
- Sabes isso?
- Sim,  é também símbolo da totalidade humana.
- Sim? Como?
- Adicionando o número quatro que simboliza o homem com o número que simboliza a mulher, isto é, o três.
- Como é que sabes isso? – pergunta Joana.
- Li num site que encontrei na internet, minto.

(continua)
Maria Luís Koen


domingo, 8 de junho de 2014

a roda - continuação



Liu Yuanshou

As mulheres modernas dos dias de hoje desconhecem a sua história como mulheres, e muitas consideram a menstruação um episódio mensal no mínimo aborrecido, um tremendo incómodo que não se importariam de abolir de vez. As mulheres do século XXI deixaram de ter e de se juntar nas “casas de lua”, nas “tendas vermelhas” para poderem descansar, conversar e partilhar as suas experiências, problemas, aflições e medos, bem como a sua intuição , essa bem antiga. Mas a verdade é que, quando acontecem jantares ou reuniões de mulheres, o resultado é que elas ficam mais felizes e sentem-se bem e com vontade de estarem de novo juntas. Nas antigas casas de lua, as mulheres mais velhas ensinavam às mais novas as chamadas “coisas de mulheres”, tais como viver com os ciclos menstruais  de uma  forma calma e sem grandes dores, ou problemas. Mas, ainda assim, apesar da era moderna em que vivemos, em algumas aldeias de Portugal, as mulheres menstruadas ainda se juntam para analisar os ciclos, para anotar a lua em que geralmente chega a menstruação (muitas vezes chamada  “a Velha ”) e para conversarem. Conhecem as luas e os seus poderes, sabem os períodos férteis, quando nascem os filhos. Sabem que a Lua Nova significa o início do ciclo, que o Quarto Crescente tem a ver com o amadurecimento, que a Lua Cheia quer dizer colheita e que o Quarto Minguante é a altura certa para avaliar o que correu bem e o que correu mal,  para assim poderem começar um novo ciclo. Este conhecimento e observação fazia com que as mulheres das aldeias não fossem ao médico, muitas ignoravam os métodos contraceptivos pois sabiam identificar os seus períodos férteis e também as probabilidades dos nascimentos.
A psicoterapeuta Patricia Cuocolo, que estudei nos tempos de faculdade e que se especializou nesta área, afirmou num dos seus estudos, algo que todas as mulheres sabem: que a “Lua, Sangue e Mulher sempre estiveram associadas. Em várias línguas as palavras menstruação e Lua são as mesmas ou estão relacionadas”. Todas sabemos o que é “estar aluada”. A primeira forma de medir o tempo foi, de facto, através do ciclo menstrual das mulheres. Estes pareciam estar de algum modo ligados entre si.  Essa sincronia apontava para uma ligação entre as mulheres, a Lua e as deusas da fertilidade. De acordo com esta terapeuta, muitas das queixas apresentadas atualmente pelas mulheres no seu (também no meu) consultório, e na clínica médica de cuja equipa faz parte, tais como “Tensão pré menstrual, cólicas, dificuldade em engravidar, doenças no útero, ovários e seios, têm as suas origens no facto da mulher se ter distanciado de sua natureza cíclica e sábia, onde a sua capacidade de se silenciar para ouvir a própria intuição e as mensagens do seu reino interior ficou para trás, com prejuízos drásticos para o seu equilíbrio físico - psíquico – espiritual” (sic).
Não é por acaso que na tradução da História Natural de Plínio aparece: «A mão de uma mulher com a menstruação transforma o vinho em vinagre, seca as colheitas, mata as sementes, murcha os jardins, faz cair a fruta das árvores, escurece os espelhos, oxida o ferro e o latão …, mata as abelhas, tira o brilho ao marfim e enlouquece os cães que lambem o sangue da menstruação…». Ainda hoje, nos países do sul da  Europa, como Portugal, se continua a acreditar que uma mulher menstruada azeda a cerveja se entrar numa cervejaria, estraga os bolos que estiverem a ser confeccionados, desanda a maionese ou estraga a carne dos enchidos quando estão a ser feitos. A mãe de uma amiga minha, de Sintra, não permitia que alguém menstruado fizesse a maionese – saia sempre mal, era um desperdício de ingredientes! A minha avó, quando matava e enchia as carnes, não deixava entrar ninguém nesse quarto, especialmente se fosse mulher, sem saber se “estava impura ou não”. Só depois de ser dito que se estava “pura” é que os olhares das outras mulheres ajudantes, que tratavam da carne, se acalmavam e se podia entrar. 

Maria Luís Koen


quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Roda - capítulo 11- O clã começa a chegar







11. 
O clã começa a chegar. Por ser de noite e a lua, cheia, entrar pelos vidros da grande janela da sala, lembrei-me da casa da lua. Mas não sei se todas estamos menstruadas. Quando, noutros tempos, as mulheres se juntavam em grupo, durante um determinado período de tempo, menstruavam juntas. Está provado que acontece assim, qualquer ginecologista dirá o mesmo. Tal facto conferia-lhes um grande poder. Vários grupos de mulheres reuniam-se em tendas a que chamavam  “tendas vermelhas” , numa clara alusão ao sangue. Juntas nessas tendas, menstruavam e eram poderosas por isso. Essas tendas também tinham outro nome: eram as "casas da lua". O sangue menstrual era considerado sagrado - sangrar sem morrer era poderoso e mágico - para as mulheres da Idade da Pedra e, ao longo dos anos sempre existiram rituais femininos ligados à menstruação. Ainda existem hoje. Por exemplo, existia o ritual chamadoThesmophoria. A sua origem perde-se no tempo. Era um ritual realizado anualmente pelos gregos quando se semeava. Reuniam as mulheres que se encontravam na menarca (primeira menstruação). Esse encontro acontecia num campo considerado sagrado, e ao primeiro sinal da primeira menstruação, as raparigas passavam por uma fenda para levar a sua oferenda – o sangue menstrual. Faziam, então, outras oferendas às divindades: a oferta do melhor leitão que existisse numa  ninhada é um exemplo. Quando a carne do leitão morto ficava podre, juntavam-lhe o sangue menstrual e as sementes. Só depois de todos estes passos é que tudo era finalmente enterrado. Era este o contributo, considerado sagrado, das mulheres, para que a colheita desse ano fosse abundante. 
Como este, há muitos rituais, ligando o sangue menstrual a um poder sagrado que só as mulheres detinham: o de sangrarem vários dias, todos os meses, sem morrer. No entanto, ao longo dos milénios muitos destes rituais e celebrações foram desaparecendo ou foram sendo esquecidos ou foram-se tornando quase secretos, alguns até foram considerados como parvoíces de mulheres incultas das aldeias. A menstruação foi sendo cada vez menos apreciada e nos anos 50, 60 ou 70, em Portugal, por exemplo, era praticamente um assunto maldito ou secreto, tabu, considerado uma coisa suja, que só as mulheres tinham, e que devia ser escondido dos outros, até dos próprios maridos. A escritora Mirella Faür é clara: "Enquanto que nas sociedades matriarcais as sacerdotisas ofereciam o seu sangue menstrual à Deusa e faziam suas profecias durante os estados de extrema sensibilidade psíquica da fase menstrual, a Inquisição atribuía a esse poder oracular a prova da ligação da mulher com o diabo, punindo e perseguindo as mulheres 'videntes'”.
Maria Luís Koen


domingo, 18 de maio de 2014

A Roda - Já não mentia há tanto tempo!




Hafez
Rassouli

Já não mentia há tanto tempo! 

Não lhe falei das benzeduras da minha tia contra o mau-olhado ou da água com sal que tenho disfarçada atrás da porta, da pimenteira no lado direito da janela, da grande  turmalina negra no centro da mesa que tenho em frente à mesma janela, ou sequer, do olho de boi que trago sempre comigo na carteira.
-Já quanto ao cemitério judaico, confesso que é a primeira vez que oiço tal coisa. Onde foi buscar essa teoria?
-Não é teoria nenhuma. Sei do que falo, sou historiador.
- Então, diga alguma coisa.
- Não sabe que em Évora existiu uma das maiores judiarias do país?
- Ouvi qualquer coisa sobre o assunto mas não sei muito sobre isso.
- Não sabe mas até deve conhecer a Rua do Raimundo, as Portas de Alconchel, não? A Rua dos Mercadores?
- Sim, sei que essa é a zona da judiaria e também sei que há a mouraria.
- Na judiaria antiga encontram-se vestígios do século XIV. E, não sei se sabe, no Museu existe um túmulo com inscrições em hebraico. 
- Penso que já o vi, sim. Muito interessante! É a sua área de estudos, não?
- Sim, neste momento, especializo-me precisamente nessa área. Há diversos estudos sobre este tema e a Dra. Maria José Ferro Tavares, por exemplo, tem livros publicados  sobre os judeus.
- Quem?
- É uma especialista no estudo dos Judeus em Portugal. Se quiser podemos falar sobre este tema, mas não hoje e não aqui. Agora quero mesmo é falar sobre a mulher que me espatifou o carro.
-Não está certo. Acabou de me dizer que o condomínio onde vivo afinal não é tão sagrado quanto eu pensava. Fiquei curiosa com o que me disse – protestei.

Mas ele não esteve com meias medidas, que o assunto do cemitério seria para o próximo encontro, já bastava a chatice, ou melhor, a sorte de eu lhe ter batido no carro, que tínhamos mais era que beber o café e o chá, que já estavam a arrefecer e pedirmos uma outra bebida para brindar a esta recente e promissora amizade. Na altura achei um atrevimento mas, por outro lado, secretamente, sentia-me infinitamente bem por aquele moreno historiador centrar as suas aptidões e atenções em mim. 
... Saboroso que as teias não aparecessem, os delírios parados num cantinho do cérebro, o zum zum dos suspiros dele sem som...
Deixei-me embalar pelo tom ameno da voz do Simão, pelas histórias divertidas que contou, pela quietude que me relaxou…
Curioso que recorde esta conversa e que, nos vários encontros que entretanto tive com o Simão, não voltássemos a falar sobre o condomínio azarado e que me esteja a lembrar do assunto agora.

Maria Luís Koen


sábado, 26 de abril de 2014

A Roda- sete trovões, sete cabeças, sete calamidades, sete reis.

A Roda - continuação



HANDS OF GOD AND ADAM, DETAIL FROM THE CREATION OF ADAM, FROM THE SISTINE CEILING, 1511

ARTIST: MICHELANGELO BUONARROTI


- Sete trovões, sete cabeças, sete calamidades, sete reis.
- Tanto sete! Já vi que é fã incondicional do sete.
- O sete é muitas vezes associado, como lhe disse, ao mal. Sabia?
Sigo o movimento dos lábios de Simão, como que hipnotizada.
- Não. Mas o que diz é um disparate total. Prefiro a versão da minha amiga.
- Está a ver, a Ana mora no número sete da Roda,  num condomínio que  se pensa ficar precisamente no antigo cemitério judaico. E é disparate porquê?
Será verdade? - penso.  
-Bem, quanto ao número sete, também sei algumas coisas – repito -  pois tenho uma amiga que tem uma fixação por ele. “Por ele e por outras coisas”, pensei. A Bíblia apresenta este número como um número "perfeito" e posso dizer que está presente em tudo na natureza. O sete é o número de Deus, ao contrário do que você afirma.
- Acha isso?
- Sim. Tudo o que Deus faz pelo homem acaba por resultar no número sete – está na Bíblia. Basta ler o primeiro capítulo e o primeiro versículo para ficar elucidado. Na língua original, claro.
- Como assim?
- Do que sei, e sei porque achei muito interessante, é que - retiro da mala um pequeno livrinho que a minha amiga me ofereceu quando fiz anos, onde está escrito o que leio a seguir – precisamente no dia sete e leio: na sua língua original, este primeiro versículo contém o seguinte:
"O número das palavras é sete; estas sete palavras têm vinte e oito letras (quatro setes); as primeiras três palavras têm catorze letras (dois setes). As últimas quatro palavras têm catorze letras (dois setes); as palavras quarta e quinta têm sete letras, as palavras sexta e sétima têm também sete letras; as palavras "DEUS" (sujeito da oração) e "CÉUS", "TERRA" (complemento directo) têm, na língua original, catorze letras (dois setes). As restantes palavras têm, também, o valor numérico de catorze (dois setes); o valor numérico de cada uma das sete palavras deste versículo é de mil trezentos e noventa e três (cento e noventa e nove setes); a primeira letra da primeira palavra e a última letra da terceira palavra somam quarenta e dois (seis setes); a primeira letra da quarta palavra e a última letra da sétima somam noventa e um (treze setes) ficando, para as restantes, o valor numérico de mil duzentos e sessenta, ou seja, cento e oitenta  setes !” (sic) E isto repete-se quase versículo a versículo em toda a Bíblia.
- Bem, retiro o que disse. Gosta de viver na porta com esse número?
- Não me incomoda viver na porta ou no andar com esse número: ao contrário do que você diz, o sete é o número de Deus. Ainda assim, não sou supersticiosa.  
Maria Luís Koen