sábado, 15 de junho de 2013

A roda - continuação

A Roda
continuação


Danielle Duer

- Conheci-a num chat. Ao fim de um ano de conversa decidimos conhecermo-nos pessoalmente. Combinámos um encontro, na baixa, em Lisboa, num café conhecido de ambas e, nesse mesmo dia, ela convidou-me para ir até ao apartamento onde vive. Jantámos e falámos sem parar. Bebemos vinho e depois whisky. Acabámos na cama e ainda não sei bem como. Só sei que adorei e que nos encontramos muitas vezes por mês. Todas as que conseguimos. Ela tem um filho e um namorado, o Jorge, que é um doce e nem sonha… Já conheço o filho, já mo apresentou e jantámos os três. Mas a Mafalda mantém o namoro com o Jorge e o romance comigo. Não o quer deixar e diz que a mim também não. Não sei o que fazer. Não a consigo esquecer, não passo um minuto sem pensar nela. Também penso no namorado. Só consigo odiá-lo. Por causa dele, ela não pode estar comigo quando eu quero.
São palavras de mágoa, paixão e ódio as de Amélia. O caminho dela é tortuoso, como é o meu , mas de maneira diferente. É tortuoso o caminho das outras, que eu sei, difícil, enganador, cheio de travessas labirínticas, com obstáculos que parece terem que vencer. Eu sei que não há cura nem salvação para o amor. Ele desperta em nós o desejo, a loucura e às vezes termina num silêncio duro e sem fim.

Maria Luís Koen


segunda-feira, 10 de junho de 2013


8




                                 


Lauri Blank






Vieste com doce
no olhar
a dizer que só pode
haver um fim:
este fim
e com mágoa ou
ânsia
os sons da minha
boca
calaram outros,
mornos lábios,
com medo do princípio
este princípio:
-          amar-te todo

no meu corpo.


Maria Luís Koen




A roda - continuação

A Roda
continuação


Patricia Ariel

-Não aguentava mais, Ana, tinha que contar isto a alguém. Saí de casa dela, não quis ficar. Durante a viagem de duas horas senti um enorme desejo de dizer isto a alguém. À Joana, nem pensar, ela não ia entender. A Roberta é minha amiga desde sempre, acho que nem sonha que eu gosto mesmo é de mulheres. A Júlia é demasiado séria para saber uma coisa destas, por isso digo-te a ti.
Que dizer nestes momentos, meu Deus, e porquê a mim? Porque sou psicóloga?
- E que queres que faça com essa informação?
- Não estás surpreendida ou chocada?
- Não. Sim. Um pouco. Isto é, só não estava à espera de uma revelação como essa, numa quinta feira às dez da noite.
- Pois é. Desculpa, Ana. Andei às voltas no carro, com o coração apertado e a pensar, porque não hei-de dizer? Tenho que dizer! Preciso dizer. Preciso de te dizer, Ana.
- E essa Mafalda quem é?
- Conheci-a através da internet.
As pessoas conseguem, ainda, surpreender-me. E Amélia, que sempre achei sensaborona, surge agora perante mim com uma nova luminosidade. É uma luz crua, despida de floreados, sem mistério. É uma luz de fogueira, quente, contam apenas as brasas, as cinzas espalham-se quando vem a brisa, às vezes vento. 

(continua)
Maria Luís Koen




domingo, 9 de junho de 2013



Elvira Fortunato nasceu em Almada em 1964. É professora do departamento de Engenharia dos Materiais e coordenadora do Centro de Investigação de Materiais da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa. Em 2008 ganhou o maior prémio de sempre dado a um investigador português: European Research Council (ERC), que a colocou no Top 5 mundial dos investigadores em electrónica transparente.



Elvira Fortunato






Omar Ortiz


Morrer de Amor


Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso


Maria Teresa Horta , in "Destino"





E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora.



Teresa Salgueiro - Madredeus



7

Patricia Ariel


Grita todas as fúrias     sonhos que não tiveste e
sacode esses cabelos bem penteados     ri até mais
não     bem alto     como um desespero último     que
eu não me importo     nem crítico     nem faço um olhar
esbugalhado.  
Se correres muito até te doer do
lado direito da barriga     ficas bem     e se me chamares
todos os nomes incluindo merda     eu não responderei.
Já em tua casa     faz aquilo que nunca te soube
a doce raiva     essa de partir todos os pratos     bater (em)
todas as portas     chorar todas as lágrimas 
fungar todas as penas     abrir depois a janela e
sorrir.


Maria Luís Koen







if we can't solve any problems
then why do we lose so many tears?
                                                     





A Roda
continuação


João Alfaro

- O chá está quase pronto. Queres bolachas?
- Só se forem de manteiga - responde.
Procuro nos armários pois sei que me deve restar um pacote de bolachas. Ah, aqui estão. Junto um prato cheio delas ao tabuleiro que levo até à salinha.
- Belo chá.
- Sim é bom- digo a sorrir.
- Venho da casa da Mafalda.
- Mafalda? Não conheço. É tua colega?
- Não.
Parece-me haver uma ligeira hesitação mas, logo de seguida, continua :
 -É minha amante.
Por momentos julgo não ter ouvido bem. Bebo mais um gole de chá. A vida às vezes é estúpida e dura e má e nós também. Os dias passam tantas vezes vazios de substância, sempre os mesmos, frios e deformados, semanas e meses em que nada acontece, em que é sempre tudo o mesmo, em que as pessoas que conhecemos nos massacram de nada ou dos seus cansaços que são nossos. Outras vezes parece que tudo isso muda, que há um tremor qualquer que tudo vai agitar, tal bola de neve, agita-me a mim e vai agitar o outro e por aí fora, sem parar. Então aparecem mil estórias que preenchem, vêm ter connosco e nós, mesmo assim, cheias do nosso próprio vazio,  não entendemos nada.
-Amante??

Maria Luís Koen



sábado, 8 de junho de 2013










Yarek Godfrey




O que sinto não é traduzível. 
Eu me expresso melhor pelo silêncio.



Clarice Lispector





sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Roda

nathalie fougeras

Abro a porta e eis Amélia que aparece. Está já frio, o Verão passou, o gorro e as luvas assim o demonstram. Entra sem cerimónia, descalça as botas, tira o casaco e afins:
- Mmmm, aqui está quentinho!
- Algum problema, Amélia?
-Decidi visitar-te, vizinha. Espero que não te importes. Estava sozinha e apetecia-me um pouco de companhia. Fazes um chá?
Vou até à cozinha que é pequena como todo o apartamento, à excepção da sala. Os móveis são em madeira clara, em contraste com os cortinados, de um tom que parece variar de acordo com a cor do mar. Procuro a cafeteira eléctrica, que encho de água do luso, preparo o tabuleiro com duas chávenas da Vista Alegre, o açucareiro e o bule. Abro o armário:
- Canela ou maçã? Ou queres chá verde?
- Canela e maçã está bem.
Enquanto espero que a água da cafeteira ferva, pergunto-me o porquê de tão inesperada visita e tão pouco habitual na minha vizinha de condomínio, e amiga, Amélia. Só quando fui visitar o apartamento com o senhor Isaac é que percebi porque o nome do condomínio não me era totalmente estranho. Afinal a Amélia era a moradora do número cinco e, quando ainda nesse dia lhe telefonei a contar que tinha acabado de ver e estabelecer o primeiro acordo para a compra de um T2 no número sete do seu condomínio, ela disse “Não sei se fizeste bem”. Mas, na excitação do momento, não liguei ao que me disse a minha futura vizinha e ainda não tivera oportunidade ou a lembrança de lhe perguntar a razão de tal reacção. Talvez hoje consiga perceber porque não fiz bem em ser proprietária no Condomínio da  Roda. Oiço-a a colocar mais lenha na lareira, a mudar o cd de música e a comentar os vasos de flores que dão colorido à sala.
Continua
Maria Luís Koen













Pétalas

andrew judd

9.

Quis morrer mais do que uma vez.
Estava farta de tudo:  farta de sentir, farta de não sentir, de não encontrar o que sonhava, farta de viver.
Pegou no carro e pensou : vai ser desta que acabo com isto! 
Vagueou até descobrir o local certo. Havendo local certo, que ela não sabia bem.  
Ali não lhe agradava, era muito barulhento; ali também não, era muito de passagem. Talvez ali, ao longe, no cimo, bem alto, perto da fortaleza onde, no passado, tantos homens morreram a lutar. Aí talvez fosse bom morrer – sempre encontraria os bravos na viagem.
Estacionou e não pensou muito ou até pensou um bocado. Não tem memória se pensou – na filha pequena, nos pais, porventura em algum amigo. Talvez tenha pensado. Não sabe ao certo. Querer morrer é doença, dizem. Por isso não sabe se pensou no assunto. Queria era acabar com tudo o que tinha na cabeça. 
Tudo.
Não via a magia. Não havia. Nada, a não ser os comprimidos que emborcou para parar de sentir. Sentir para quê? O quê? Queria outra vida, melhor do que esta que tinha. Pelo menos diferente. Queria mais, queria outra coisa, queria à noite não sentir fome de doçura. Uma mudança que a morte lhe traria. Seria, no mínimo, o paraíso.
O paraíso branco e verde quando acordou, o cheiro a hospital, olhos e mais olhos a julgar.
O psiquiatra a falar, a questionar. 
Atrás da janela da sala Fernanda recorda algumas coisas. Apenas as que quer recordar. Sabe que algo mudou. Não aquilo que queria. Mudou certamente o olhar. As certezas não. As expectativas sim. De que não vale a pena querer o impossível, não vale a pena estender a mão, não vale e pena exigir a magia. Ela acontece se tiver de acontecer, apesar de poder nunca vir a brilhar.
Não sabe se é mais feliz, se é mais infeliz.
Procura um tesouro escondido, cigarro na boca, olhos a brilhar, presa num corredor infinito, de mãos estendidas. Procura sabendo que pode nunca o encontrar.
Fernanda pensa no suicídio quando se olha ao espelho pela manhã. Pensa também que precisa dos cheiros que surgem do campo em frente à janela do quarto, pensa que tudo se esvai, que tudo desaparece como aparece.

E continua a moldar a sua pequena estátua de barro escuro, à espera que as horas passem e que chegue o dia de voltar a ser ela.

Maria Luís Koen


terça-feira, 4 de junho de 2013

A Roda

corinne reignier

8 .
AMÉLIA
Sentada no sofá da minha sala, penso no que posso fazer por Berta. Não acredito que ele lhe tenha dado um murro, mas deu. Um de muitos, ao que parece. O divórcio é certo, a Joana encarrega-se das questões legais, mas ficam as dores invisíveis, aquelas que não se tratam com paracetamol, que deixam marcas sem cor, que sangram por dentro. É aí que entro. E vou ajudar como ajudo muitas outras.  São prisioneiras do medo, sem esperança. Eles em liberdade, elas vítimas e fugitivas eternas. Muitas vezes em casas de abrigo com os filhos, fogem ou escondem-se de uma rotina de maus tratos. Mas querem recomeçar, têm direito a isso e à vida. Concentro-me no que me espera amanhã. Não consigo. Berta não me larga a memória. Triste por ela, triste por acontecer, ainda, todos os dias, a tantas mulheres. Um inferno. Olho para o aquário grande na parede oposta ao sofá. Os peixes são uma terapia para mim, mais uma que me ajuda a remexer no lixo, nesta contínua dor dos outros que é minha, deste medo de morrer sozinha, como eles. Basta estar dez minutos a olhar para os seus movimentos silenciosos e o stress desaparece, a ansiedade também. O meu aquário é a minha tranquilidade ao fim do dia, quando a tenho. Quando me perco nos seus movimentos calmos e de súbito rápidos, quando me hipnotizam através do vidro, aí,  esqueço o escuro da sepultura fechada, com ele lá dentro. Foi a melhor prenda alguma vez recebida. Embora no início tivesse ficado um pouco aborrecida, depressa esse sentimento deu lugar a outro bem mais positivo. Volto aos papéis. Releio os apontamentos sobre a paciente das nove: a POC pode transformar e infernizar a vida de quem sofre desta doença e não se trata. Uma vez mais tenho dificuldade em concentrar-me. Os meus pensamentos vagueiam em círculos ilimitados, sempre entrecortados pelos raios dos que giram à minha volta. Raios independentes de quem me sinto dependente. Às vezes odiamos aqueles que nos fazem sentir bem e com quem nos sentimos menos sós. Fecho os olhos por um instante. A música alivia-me a alma, que sinto doentia, entrecortada, raivosa, agitada. Volto aos apontamentos que os olhos captam, mas o pensamento foge, para a maldição do que perdi irremediavelmente, se é que perdi alguma coisa. Talvez não fosse amor, dizem que é eterno. A campainha da porta toca. “São dez da noite”, penso, “Quem será a esta hora?”. Visto rapidamente o robe, pergunto quem é.
-Sou eu, a Amélia. Deixa-me entrar.
-Sobe!

Maria Luís Koen