terça-feira, 14 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
A Roda
Parte 1
4. Ana
Parte 1
4. Ana
Basi Mateo
4 .
ANA
É meia-noite, já passa. A televisão está ligada mas sem som, a música que se ouve ao longe vinda de um outro apartamento não me ajuda na leitura. Leio A Terceira Rosa de Manuel Alegre. Tento, porque não consigo concentrar-me. Penso naquele estalo que me deixou perplexa. Nem eu nem a Júlia entendemos o que se passou. Joana saiu porta fora, sem explicação. Até agora não telefonou a qualquer uma de nós e o telemóvel está sempre desligado. Voltámos para casa logo após o ocorrido. Júlia não quis subir e ainda bem. Não me apetecia muito conversar. Tomei um duche quente, vesti o pijama, tentei preparar umas coisas para Segunda-Feira mas não consegui. Agora já estou deitada e penso que o dia de amanhã vai ser longo e aborrecido. Vou ter que telefonar à Roberta, combinar um café ao fim da tarde. Pressinto, pela voz, que não está nada bem. A minha profissão também não me ajuda – nem este hábito de conseguir ver para além do normal. Há quem lhe chame pressentimento, algo incompreensível para muitos, uma espécie de antena interior que uso para ver por dentro, ver o que muitas vezes não querem mostrar. Às vezes tenho medo. Medo do que não quero ver, medo do que vejo e não aconteceu ainda, medo das sensações que a visão me traz.
(continua)
Maria Luís Koen
"... Porque amamos sempre a pessoa diferente, procuramo-la em todas as situações e variantes da vida... O maior segredo e dádiva da vida, quando duas pessoas semelhantes se encontram... Isso é tão raro, como se a natureza impedisse com força e astúcia essa harmonia - talvez porque para a criação do mundo e para a renovação da vida necessita da tensão que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida opostos... "
Sandor Marai
domingo, 12 de maio de 2013
O canto das sereias
sandro israel lopez cortes
Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam pelo local onde habitavam: os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália. Assim, os navios colidiam com os rochedos e afundavam.
Ulisses , personagem da Odisséia de Homero, conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro do seu navio para poder ouvi-las sem correr o risco de se atirar ao mar para as seguir.
Na Grécia Antiga, os seres que atacaram Ulisses eram sereias, mulheres que ofenderam a deusa Afrodite e foram viver para uma ilha isolada. Assemelham-se às harpias, mas possuem penas negras, uma linda voz e uma beleza única.
A Roda
Parte I
3. continuação
Parte I
3. continuação
Gianni Strino
- Mas porque choras? Homens é o que não
falta por aí, dizia para a animar. Tu és linda e inteligente, ganhas bem, és
independente, podes refazer a tua vida sentimental com rapidez se assim
quiseres.
Por tudo isto ela ainda se sentia mais
irritada por dentro. Pensava no seu orgulho ferido e não procurava perceber o
porquê de tudo aquilo. Quando voltou para casa, meio cega de dor, raiva,
desespero, procurou nas gavetas os álbuns e rasgou todas as fotos do casamento,
as cartas que ele lhe tinha escrito quando ainda namoravam, partiu as pulseiras,
deitou a aliança na sanita, destruiu os lençóis da cama, espezinhou as roupas. Gritou
no vazio da casa, fumou cigarros ininterruptamente e bebeu para esquecer. Quis
também apagar os cheiros, as imagens e as recordações. Chorou por não
conseguir. Anestesiou-se em comprimidos para dormir. Chorou muitos dias mais,
quando ninguém via, até uma manhã qualquer acordar e dizer: Basta! Os olhos não
mais se encharcaram mas a angústia continuou por tempo indeterminado, o nó na
garganta. O vazio também. As recaídas de
pena de si mesma aconteceram amiúde. Deixou, no entanto, de haver raiva ou
ódio. O nó permanente na garganta, porém, continuou, a mágoa, a ferida por sarar,
luto continuado de marido vivo – ferida de combustão lenta, de evolução
sofrida. Não podia dizer: “Estou triste porque o meu marido morreu”. Mas
estava. Triste porque o marido morto, estava vivo. E as perguntas, sempre as
mesmas, continuaram a perturbá-la : por que é que o Pedro arranjara outra mulher?
Onde tinha falhado? Não era feia, considerava-se brilhante, entendiam-se bem
sexualmente. Da raiva, da interrogação, do desespero, passou pela solidão,
ansiedade, até fadiga. É o luto, a dor demonstrada da separação.
- Porquê, Ana? Onde falhei, Ana? Tenho tudo
e não tenho nada. Sinto-me totalmente vazia, oca, ferida de morte.
Não soube responder. Apenas quando conheci
a “puta” mulher de Pedro, certa vez que os encontrei no “Froscas” e pude
conversar um pouco com o casal, só nessa altura pude dar resposta às perguntas
de Júlia. E entendi tão bem. A puta não era tão intensa e brilhante e
inteligente como Júlia mas, ao contrário desta, era meiga e de uma doçura capaz
de encantar o mais empedernido dos seres humanos. Pedro sempre vivera dominado
por Júlia, mulher de personalidade demasiado forte para ele, um homem
corpulento mas dócil. Ele admirava
Júlia e sentia –se dominado por ela. No dia em que conheceu a puta num acidente de viação um pouco grave, tudo
mudou para ele, para a puta da enfermeira que se tornaria na sua segunda mulher
e para Júlia.
- Pedimos sobremesa? Três saladas de fruta por favor.
E eis que o Ruivo entra. No ar cheira a
tensão. Eu e Júlia trocamos olhares. Esperamos um turbilhão de sentimentos,
gestos ou palavras. Ele aproxima-se da nossa mesa. Sinto a palidez de Joana. Continuo sem perceber porque ela quis
vir aqui.
- Boa noite minhas senhoras.
Ela levanta-se, dá-lhe um estalo e sai
porta fora.
(continua) - ver "Páginas" - A Roda
Maria Luís Koen
sábado, 11 de maio de 2013
Pétalas
Leonid Afremov
6.
Sara
era feia.
Tão
feia que é difícil descrever.
Os
olhos estavam sempre encovados, rodeados de olheiras escuras, tinha os dentes
tortos na boca grande, as mamas descaídas apesar dos vinte anos, o cabelo
desgraçadamente escorrido e espigado. Depois, era alta e magra mas não era
elegante e sim desengonçada. Uma calamidade em termos de beleza, a que era
difícil fugir ou deixar de olhar.
Era
tão feia que as pessoas paravam, não conseguiam deixar de a mirar, às vezes com
despudor, outras vezes disfarçadamente, mas olhavam sempre, como se ser feia
fosse um íman. Ela, no entanto, parecia não ver o quanto chamava a atenção,
parecia não saber que era feia, parecia não ligar a nada. Não parecia sentir-se
incomodada ou infeliz, frustrada ou deprimida. Era feia, pronto. O que podia
fazer?
Às
vezes as amigas mais chegadas diziam-lhe que devia arranjar melhor o cabelo,
pintar um bocadinho os olhos e os lábios, ir ao dentista arranjar os dentes. Mas
Sara fazia ouvidos de mercador e continuava a vida dela, parecia contente por ser
tão feia. Já as colegas não estranhavam que ela fosse assim, depressa se
habituaram aquela figura estranha, desengonçada e torta, que parecia estar sempre a cair.
As
amigas de Sara eram raparigas normais, até bastante bonitas e saudáveis. Muitas
vezes, quando ela não estava presente, eram um bocadinho más nos comentários
que faziam mas, no fundo, gostavam da
amiga, sentindo até um pouco de pena dela, achando que Sara nunca seria de
facto feliz, nunca teria vida própria, que seria uma bela tia, a tia feia – e riam
de maldade.
No
dia em que houve trovoada e choveu torrencialmente, Sara apareceu no café do
costume, onde se juntava com as amigas e convidou-as para uma ida até ao lago,
no fim de semana. Combinaram o farnel, a hora da chegada, o ponto de encontro.
Nesse dia nem estava sol. Estava encoberto e havia nuvens escuras no céu a
dizerem que choveria mas elas não se importaram. Em vez do guarda sol levaram o
guarda chuva, em vez do fato de banho, um impermeável, em vez do sol abrasador,
um vento seco. E na hora combinada elas esperaram por Sara, que demorava.
E
de repente a chuva.
Chuva
e mais chuva, as pernas a ficarem molhadas, os cabelos despenteados e a feia
nada. Sem saberem o que fazer esperaram mais um pouco, até que, lá bem ao
longe, no meio da trovoada, um vulto finalmente aparece, a caminhar lentamente.
Já
fazia frio e a Sara demorava a chegar. Elas queriam sair dali para um lugar
mais seco e mais quente, aborrecidas com o atraso da Sara feia, desengonçada,
estúpida, atrasada. Só lhe saiam da boca nomes feios, na irritação de se verem
encharcadas.
E
Sara veio, o vulto cada vez mais perto, cada vez mais nítido. Sara trazia
companhia, não vinha sozinha. Um braço forte aconchegava-lhe o corpo
desengonçado. Um braço que pertencia a um corpo grande e forte, que caminhava
com desenvoltura. Eram dois vultos num só, onde sobressaia um pescoço largo que
amparava uma cabeça cheia de cabelos pretos, onde brilhavam uns olhos esverdeados
cheios de amor por Sara. Era um homem tão
belo quanto Sara era feia e isso deixou-lhes
as pernas roxas, os olhos abertos, as bocas imóveis de espanto.
Chovia
sem parar.
A
chuva parecia lavar a Sara feia
– que estava bonita, sim, estava bonita.
Maria Luís Koen
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A Roda
1ª Parte
3. Julia - continuação
1ª Parte
3. Julia - continuação
Amedeo Modigliani
O ex-marido de Júlia, Pedro, agora juíz no
Tribunal de outra Comarca, foi sempre um rapaz certinho e estudioso. Raramente
ia a festas, saídas à noite não gostava e, quando entrou na Faculdade de
Direito. quase se tornava eremita não fosse Amélia, sua prima, que de vez em quando
o obrigava a umas saídas. Fora precisamente numa dessas saídas com Amélia que a
nossa relação com o Santo, como gostávamos de lhe chamar, se tornou mais
estreita. Amélia, também estudante de Direito, tinha uma amiga especial com
quem partilhava o quarto: Júlia.
Júlia apaixonou-se loucamente por Pedro na
primeira noite em que o viu: completava vinte anos e decidira fazer uma pequena
festa de aniversário para os amigos mais chegados. Já ouvira vezes sem conta
falar de Pedro, pois Amélia era quase uma irmã para ele e falava muitas vezes
do rapaz, por isso pedira a Júlia permissão para o levar à sua festa de
aniversário, numa tentativa de o socializar e de o tirar de casa. Nessa mesma
noite, assim que o viu, Júlia hipnotizada, tomou a decisão de o conquistar. Não
foi difícil, pois Pedro não era muito experiente com mulheres e, ao ver-se
assim assediado, resistiu pouco. Passados doze meses de namoro as famílias já
se conheciam e o casamento estava marcado: para o final do estágio. Três filhos
passados, fiquei admirada quando recebo um telefonema de Júlia no meu
consultório: estava em prantos. “Ele enlouqueceu, Ana. Só pode ser isso. Tens
que vir aqui avaliá-lo. Leva-o para um hospício, para um hospital de loucos!” Nessa
mesma tarde, com urgência, encontrámo-nos no Café do Hotel da Cartuxa para
uma conversa urgente. Li - lhe o desespero e a raiva nos olhos. “Leva-o, Ana,
que ele não está bem”. Levo-a comigo para casa, que quem não estava bem era
ela. A cara não enganava, o olhar também não. Liguei a televisão para amenizar
o ambiente, ela foi directa para a casa de banho vomitar, chorar, gritar:
“Leva-o para um hospício! Leva o cabrão!! Leva-o!” Fui até à casa-de-banho, dei-lhe um copo de
água que atirou ao chão. Depois pareceu
ficar mais tranquila e disse: “Ele anda com uma puta qualquer, Ana, uma puta da
pior espécie. Eu bem os vi a arrotar de volúpia, eu bem os vi. Como pôde ele
fazer-me isto?”. Fiquei a saber que Pedro, o Santo, queria o divórcio pois
tinha outra mulher.
(continua)
Maria Luís Koen
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Eric Oriol, um anónimo como eu, diz sobre esta canção:
"... Sometimes, we need to realize that finding somebody who loves us is just as important as finding that imaginary person who we believe will take us to love heaven. Respect , trust and loyalty put together are worth more than love any day in my book..."
The Eagles
A Roda - Parte 1
3.Continuação
3.Continuação
Irina Karkabi
Joana estaciona o carro e às oito em ponto
entramos no restaurante. Reparo que o olhar dela brilha e que, disfarçadamente,
procura alguém que não está. Júlia acena da
mesa onde se encontra sentada. Não
parece ter cinquenta anos. Os olhos, hoje azuis escuros, condizem com o
conjunto turquesa e sorri. Escolhemos vinho da Herdade do Esporão e carne
grelhada. A conversa caminha e salta por temas diversos, uns mais, outros menos
fúteis, desde a actualidade política, a casos ligados à profissão, passando
pelo apartamento que Júlia comprou depois da separação, do tempo que levou a adaptar-se
à nova situação de divorciada, à falta de alguém com quem conversar e
partilhar, da solidão, do sofrimento calado, dos medos que a assolaram, do frio
nas costas quando se deitava do mesmo lado da cama, nunca ao meio ou do lado
onde ele dormia, das reacções diferentes dos filhos e como conseguiu que estes
passassem pelo divórcio de um modo o mais pacífico possível, do tempo que
demorou a recompor-se do golpe, de como se colou à nova vida de solteira, terminando
no assunto principal: o casamento de Joana. Afinal a madrinha é a Júlia e há
certos pormenores que elas gostam e querem discutir. Na verdade, nem sei porque vim também. Teria ficado melhor em casa mas, por outro
lado, quando estamos juntas estamos bem, sentimo-nos mais fortes, mais
apoiadas, mais seguras, e acabamos por
nos habituar às singularidades e diferenças umas das outras. São estas que nos
aproximam. A conversa aborrece-me um pouco e acabo por divagar, durante
segundos apenas pois Júlia não resiste:
- Por favor Joana, casa com separação de
bens. É o melhor que tens a fazer.
Repara no que aconteceu comigo. Ele, com as suas míseras traições, levou-me metade de tudo o que era meu.
- Não significa que aconteça o mesmo com a Joana,
digo, ou que os homens sejam todos iguais.
Mentira descarada, palavras falaciosas, nó
que se atravessa na garganta. Não há psicanálise que cure esta vontade de
batalhar inutilmente contra a maré, de iluminar as ruas escuras. O culpado é
ele, por me sentir sempre assim, por não ser capaz de parar, por não passar duas
horas por dia no ginásio, por não conseguir começar uma relação, que acaba sem
ter começado. O medo de ficar exausta e cega, de não ver os sinais, da cabeça a
ferver, das notícias tristes.
- Não sejas ingénua, Ana. Acorda para a
realidade. Este é um mundo de homens, feito por homens, para os homens. As
mulheres, algumas, começam agora a despertar. E a realidade é que os homens têm
no sangue o gene da traição. Mais tarde ou mais cedo, ela acontece.
E insiste.
- Joana, vais casar-te, portanto prepara-te
para te sentires enganada e traída.
- Não digas isso, Júlia. Nem todos os casos
são como o teu, digo.
Mas são. Vontade de dizer que são, mas não
digo. São como o dela e como o das outras. Vontade de destruir algo, mas não
faço. Vontade de requintadamente fazer mal, querer que chorem, que amaldiçoem o
dia, que saibam que é tempo perdido. Eles vão, partem de uma maneira ou outra,
partem sempre, ficam as culpas intermináveis, as memórias doces, doentias, as
flores brancas nas campas. …
(continua)
Maria Luís Koen
segunda-feira, 6 de maio de 2013
A Roda
1ª parte
1ª parte
Danielle Duer
3.
JÚLIA
O “Froscas” é um restaurante típico, bem
situado, numa zona central da cidade, famoso pelas suas noites de fado e de
canções, às vezes modas, nunca esperadas, vindas de quem lá aparece para comer.
É discreto na decoração tipicamente alentejana e também discreto na iluminação
e até na loiça que usa, toda de barro. Tudo está sempre bem confeccionado, a
doçaria é excelente, os empregados q.b. de simpatia. Foi comprado pelo
engenheiro Ruivo, homem moreno, com bigode muito português, por quem a Joana se
apaixonou numa noite de comes e bebes depois de um caso que no Tribunal lhe
dera muito trabalho mas que acabara por conseguir a favor do seu cliente. O
Ruivo, como tantos outros, não conseguiu resistir ao charme um pouco sensual e
louco de Joana e, nessa mesma noite, depois de várias ofertas da gerência da
casa, acabaram os dois na mesma cama e no seu apartamento. O romance ia de vento em poupa e uma semana após a festa de despedida
de solteira da Joana toca o meu telemóvel – era o Ruivo. Como explicar a um homem, português de
bigode, machista o suficiente, para quem as mulheres são seres frágeis e difíceis
de entender, pertença do macho e apenas isso, os medos e as paixões de Joana?
Vamos no carro, um Audi A4 azul escuro, e
ela não pára de falar. Embora se diga que a mulher fala muito mais do que o
homem – divago - de qualquer forma e sem abordar um tema especifico, nos
Estados Unidos onde fazem estudos sobre tudo e mais alguma coisa, um professor da
Universidade do Arizona investigou esta questão. Também no México, um grupo de
psicólogos decidiu saber se é de facto verdade que a mulher fala mais do que o
homem. Curiosamente ou não, o estudo veio provar que esta “tese” está errada e
que, na verdade, há apenas uma diferença de sete por cento no que respeita ao
número de palavras ditas pelos sexos masculino e feminino. Ora um tal número é pouco
ou nada relevante em termos estatísticos. Joana não entrou nos referidos estudos,
é certo, e a verborreia continua: casos do tribunal, pessoas que não conheço, dramas
dos clientes, uma qualquer associação que quer formar, do vestido que vai
comprar – Achas melhor branco ou creme, Ana? - da boda, do apartamento do
Miguel e da mobília dele que ela detesta, do avô que está quase morto e só
pensa em mulheres, da avó que doentiamente só pensa nele. Uma grande mistura de
palavras, personagens, temas e situações que formam um grande novelo
emaranhado, um todo sem nexo à primeira vista, mas que acaba por tecer um
estreito fio conducente a uma teia cada vez maior, de que faço também parte,
mesmo sem querer. E o ciclo vai-se repetindo, situações que já vivi,
sentimentos que já partilhei, coisas em que já acreditei. Ela fala sem parar e
eu não sei, não percebo este rumo, não acredito neste amor de que ela fala, nos
sentimentos sem um fim, na felicidade sem limite. E as palavras dela batem no
meu destino, que não sei qual é, talvez até saiba, na minha luta intima, do que
esperei e não consegui. Do que esvoaçou e perdi.
- Tu decides, Joana. Da última vez dei a minha opinião e não
houve casamento. E já agora, porque vamos ao Froscas? Achas que o Ruivo vai
ficar contente por te ver? Sabendo
que vais casar e que o deixaste há seis meses sem uma explicação que se
perceba?
Eu sei que não sou bonita como a Roberta,
nem sensual como a Joana ou inteligente como a Júlia, mas… de todas as minhas
amigas sou a única com um pingo de bom senso. Daquele bem seco, sabido,
conhecedor de ratoeiras, e de almas podres, bafientas, sujas e tristes. E o bom
senso diz-me que ir almoçar ao “Froscas” neste Domingo com cheiro a trovoada
não é uma boa escolha. Ana, a intuitiva, a falar. Tenta compreender em vão pois
Joana já combinou e reservou mesa em nome da Drª Júlia Ribeiro, brilhante Juíza
da terra.
Que diferente era a Júlia dos tempos do
Secundário – demasiado tímida para se expor, demasiado introvertida para falar
em público. E agora…
Júlia foi e é uma grande admiradora da
Dra.Ruth Garcez, a primeira mulher juiz de Portugal. Por tanto a admirar, decidiu-se
por frequentar Direito e depois ingressou no curso de formação inicial de
magistrados, ministrado pelo CEJ - Centro de Estudos Judiciários, optando pela
Magistratura Judicial, ao contrário de Amélia que optou pela Magistratura do
Ministério Público. Sempre que a vejo sinto-me pequena. Júlia é brilhante e inteligente. Os olhos azuis, ora claros ora escuros, dizem tudo. Fala
rapidamente e o tom de voz, apesar de calmo, é objectivo e incisivo. Tem uma
vida boa, alguns sobressaltos, nada que não consiga superar, e três filhos adolescentes
lindos. Às vezes fico a pensar como
seria bom se eu tivesse filhos. Sobrinhos não é a mesma coisa. Será o relógio biológico?
(continua)
Maria Luís Koen
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