quarta-feira, 8 de julho de 2020


Memórias da Aldeia


7. 


O quebranto






     Foram muitas as vezes que a avó Isabel nos tirou o quebranto.
    Bastava estarmos mal dispostas, termos dor de cabeça ou chegadas a casa vindo de outros lugares, cansadas, que ela, desconfiada ou preocupada, ia à cozinha, trazia um prato cheio de água, onde deitava umas gotinhas de azeite. Umas vezes havia reza e repetia o deitar das gotinhas do azeite na água, outras vezes ficava-se por ali. No início não percebia a diferença, era mais pequena. Depois comecei a colocar questões sobre o “quando é que havia reza e porquê”.
     Não só a avó Isabel mas também a tia Rosária, sua filha, sabiam e faziam este ritual. Da reza não davam conhecimento porque, se o fizessem, perdiam de alguma maneira o poder de tirar o quebranto. Por isso,  o ritual passava entre as mulheres da família -  a reza.
     Deitavam cinco pingas de azeite num prato com água. Se o azeite se espalhasse, a pessoa tinha quebranto e a reza era repetida até isso não mais acontecer; se se juntasse numa só bolha, estava tudo bem.


“Deus te viu
Deus te criou
Deus te livre
De quem para ti mal olhou
Em nome do Pai, do Filho,
E do Espírito Santo,
Virgem do pranto
Tirai este quebranto”



Maria Luís Koen



terça-feira, 7 de julho de 2020



22

(Rivka Korf)



O meu grito hoje diz não.
Não às palavras e gestos incompletos
de ternura, hirtos, sem significado.
Não aos sons contidos na garganta
à amargura e queixume monótono da
lamentação.
Não aos olhos que teimam em não chorar
Não aos que querem sentir
Não aos sorrisos oblíquos
à vergonha dos silêncios
à sobriedade dos momentos.
Não às frases mágicas de anulação
aos fios sempre abertos da razão
às cóleras de quem não sabe que morre.
Não aos hálitos de lugar nenhum
do senso comum
do sonho nenhum.
Não!
O meu gritar hoje diz não.


Maria Luís Koen



21


(Nick Hale)

Um caixão morto.

terias sido o traço contínuo
ultrapassar tudo no intervalo
das sensações.

estás morto.

bebi o turbilhão do choro
com todas as flores.

gritas o silêncio ao longo da rua
molhada
ignoras os becos
o limite do som.

és caixão.

tenho os olhos fechados
que não te quero vêr.


Maria Luís Koen


segunda-feira, 6 de julho de 2020



MEMÓRIAS DA ALDEIA


 6.  A água fresca






1                   

     Quando  era pouca a água para beber dentro dos potes, havia que ir buscar mais pois na aldeia não existia água canalizada.
     O sítio era escolhido a preceito, uma nascente, pois a água não era para lavar e sim para beber.
     Preparavam-se os potes, as rodilhas e a disposição para caminhar. Eram várias, as mulheres da aldeia, que se juntavam com o mesmo objetivo: a água. Saias rodadas por baixo do joelho, meias até ao joelho, avental , blusas floridas a tapar o decote, lenços na cabeça, cabelo grande enrolado. 
     Na ida para lá, os potes iam à cabeça, deitados; à vinda para cá, iam em pé, cheios de água. Gostava sempre de ir porque o divertimento era muito. Muitas vezes ia eu, a minha irmã, os primos ou outros miúdos. Apanhávamos flores do campo, bebíamos da natureza e era tudo puro e belo. Também levávamos um pequeno pote e uma rodilha mas o resultado não era o mesmo.
     Ficava sempre admirada porque os caminhos eram de terra batida e as mulheres nunca deixavam cair os potes. Direitas e elegantes, com os seus lenços que lhe cobriam os cabelos, que não cortavam, elas lá iam na conversa, alheias à admiração que causavam.
     Colocados novamente no local devido, eram muito usados e acarinhados, pois tinham água pura sempre fresquinha.


(fomos buscar água)



Maria Luís Koen






20




Lana (Tchéquia)


Sou ar molhado de vento
sou candeeiro branco
cama de ferro sem colchão
sonho espiritual em botija
quente
ou sou apenas roncos de
mim no escuro do quarto,
cabelos pegados
canetas febris.
Medo dos sons amorfos
sem alma sem nada?


Maria Luís Koen




19


(Lisa Nelson)



AB UNO DISCE OMNAS?



Unhar é signo de gatos.
Sou gato.
Gato louco  -  nada diz
de tudo saber,
hipnotismo seco.

Deslizar é signo de gatos,
sou gato
rente, só a penugem
que aflora, lenta.

Gato que dorme enroscado no
sonho de todos os 
Janeiros de amor,
gato
gato.


Maria Luís Koen






sexta-feira, 3 de julho de 2020



Memórias da Aldeia

5. Os bilros






     Enquanto conversávamos na varanda, sobre o próximo jogo do monopólio com os primos, sobe uma mulher os degraus e entra para mostrar as meias feitas em renda com quatro agulhas e o naperon feito em renda de bilros. 
     A avó vai à salinha buscar a cesta dos trabalhos e mostra o par de meias em renda até ao joelho, o seu último trabalho,  para usar em dia de festa. A tia vai lá dentro buscar a cesta onde se encontra o que está a fazer em renda. 
    A curiosidade é muita, os bilros pauzinhos encantados a que se juntam alfinetes e gestos doidos, para quem não entende nada da técnica. Ela explica, sim, mas não é fácil, a técnica. Ela explica com a sua voz cantada e mostra como faz, muito lentamente para se fazer entender. A almofada ou rebolo onde é colocado o desenho num cartão e onde ela vai colocando os alfinetes à medida que o trabalho avança. Não há agulha mas sim bilros em madeira, onde enrola os fios dos diferentes materiais, que podiam ser algodão, seda,linha...     
    A tia fazia a renda com os bilros aos pares. Parecia uma dança complicada de pauzinhos, muitos, pelo menos para mim. O barulhinho era engraçado e tudo aquilo parecia magia. Quantos eram os bilros? Não sei. Eram muitos, dependendo do trabalho a ser feito. Depois trocava este por aquele, ia buscar outro e mais outro, aqui e ali, em voltas e mais voltas de pauzinhos até o desenho ir surgindo, belo e minucioso. Uma maravilha. 
     Hoje tenho pena de não ter aprendido.


Maria Luís Koen




Memórias da Aldeia

4. O conto do João Soldado ou João Sem Medo


Sentados à lareira, todos ouvíamos o conto, contado pelo avô:

     

Era uma vez um soldado, chamado João,  que foi servir a pátria.

     Ao fim de vinte e quatro anos ganhou quatro vinténs e um pão.
     Um dia, no caminho,  encontrou o Senhor e S. Pedro disfarçados de mendigos,  que lhe pediram uma esmola. Ele não os reconheceu e disse:
-“ Andei vinte e quatro anos a servir o rei e a paga que tive foi um pão e quatro vinténs e ainda me pedem esmola?”
     Mas,  apesar do pouco que tinha, acabou por dividir o pão em  partes e cada um ficou com o seu bocado. E foram à sua vida.
     Ia o João Soldado novamente no caminho, quando encontrou os pobres outra vez. Disfarçados,  pediram esmola e ele deu mais um bocado do que tinha. Foram  embora e  voltaram a encontrar-se.  O João Soldado, que quase nada tinha, deu-lhes mais dois  vinténs e ficou sem nada. Então S. Pedro disse ao Senhor:
         – “Lembrai- vos do pobre soldado que repartiu connosco tudo o que tinha.” E Nosso Senhor disse a S. Pedro que perguntasse ao soldado o que ele queria. João pensou um bocado no que havia de pedir e depois, apresentando a Nosso Senhor o saco que levava, disse:
– “Peço para que este bornal tenha o condão de entrar para dentro dele o que eu quiser.”
     E Nosso Senhor concedeu o que João Soldado pediu.
- “Sempre que quiseres algo, só tens que dizer- venha aqui para o meu bornal.” E foram embora.
     O João Soldado, contente mas não muito convencido,  decidiu experimentar. Estava com fome, passou perto de uma mercearia e disse:
- “Pães, chouriços e água pé, venham já pró meu bornal”. Para espanto seu, uma fileira de pães, chouriço e água pé entraram para dentro do bornal. A partir daí, sempre que queria alguma coisa dizia :
-“...venha aqui para o meu bornal” e o pão, a carne, tudo o que queria, saltavam para dentro do bornal. 
     Era quase noite e o soldado estava cansado de andar todo o dia.  Foi à procura de uma pousada, mas só lhe ofereceram uma casa que estava desabitada há muito tempo, e para onde ninguém queria ir, porque lá aparecia de noite uma alma do outro mundo. Dizia-se que era a alma do dono que lá tinha morrido, um grande avarento que morrera a uma sexta feira. O soldado João gostou daquela história de almas do outro mundo.    Viu a grande casa e decidiu entrar. Se houvesse algum problema, ele tinha o seu bornal!
– “Sou um soldado que servi o rei durante vinte e quatro anos por um pão e quatro vinténs e não tenho medo de nada. Sempre quero vêr essa alma do outro mundo...”
     Entrou, havia uma salgadeira com boa carne, presuntos no fumeiro e bom vinho. Acendeu o lume de chão e pôs-se à lareira pronto a assar a carne. Estava esfomeado. De repente ouviu uma voz grave e forte vinda do alto da chaminé da lareira:
- “Olha que eu caio !...”
     Ele, sem medo, bebeu um copinho de vinho.
- “Olha que eu caio!”- disse a voz outra vez. 
- “Olha que eu caio!!”- gritou.
- “ Cai para aí à vontade. Eu sou o João Soldado, andei vinte e quatro anos a servir o rei, ganhei um pão e quatro vinténs e não tenho medo de ti”- disse o João Soldado.
     - “Então, lá vai a minha cabeça.”.
     E cai a cabeça do homem.
- “Olha que eu caio!”
- “ Cai para aí à vontade, 
que eu apanhar-te não vou, 
para que hei-de eu levantar-me, 
se tão bem sentado estou."- repetiu o João Soldado.
 E cai o braço do homem. E a seguir o outro.
     João Soldado ia bebendo sem medo.
- “Olha que eu caio!”
- “Cai para aí à vontade, 
que eu apanhar-te não vou, 
para que hei-de eu levantar-me, 
se tão bem sentado estou.”
     E cairam o tronco e as pernas.
     Finalmente, depois de estar o homem inteiro caído no chão, o João Soldado disse:
- “E agora?”
- “ Une-me a cabeça ao tronco!”.
     E ele assim fez.
- “Une-me os braços ao tronco”
     E ele assim fez.
-“Une-me as pernas ao tronco”.
     E ele assim fez.
     O homem ficou completo.
- “ E agora?”
- “Agora ajuda-me a levantar”. 
     E ele assim fez.
- “És valente!”
- “Servi o rei durante vinte e quatro anos e recebi em troca um pão e quatro vinténs!”, disse João Soldado muito senhor de si.
- “Se és pobre, podes ficar rico se fizeres o que eu disser”.
- “O que tenho que fazer?”- perguntou.
- “Anda comigo.”
 E a alma do outro mundo, seguida do soldado, encaminhou-se para uma casa subterrânea, que havia por baixo da cozinha. Levantou uma grande pedra que tapava uma cova e mostrou ao João soldado três grandes potes cheios de dinheiro.
– “Vês todo este dinheiro?”-  disse a alma do outro mundo.
– “Vejo sim”.
– “Pois parte deste dinheiro será para ti se cumprires as minhas ordens”.
– “Vamos a isso”, respondeu o soldado.
– “Então reparte este dinheiro em três partes. Uma é para dar de esmolas aos pobres; outra é para mandares dizer missas pela minha alma; e a terceira parte é para ti se cumprires à risca a minha vontade.”
– “Está bem”, disse o soldado. “Eu que servi o rei durante vinte e quatro anos, por um pão e quatro vinténs, melhor cumpro as tuas ordens, com tão bom pagamento”.
E o João Soldado foi logo tratar de dar as esmolas aos pobres e de mandar dizer as missas pela alma do avarento. Com o dinheiro que restou, comprou uma boa casa e teve uma boa vida, cheia de vinho e comida.
     O Diabo, porém, jurou vingar-se do soldado João, por ele lhe ter tirado a alma do avarento, que afinal se salvou com as esmolas e as missas. Mandou logo ter com o João um diabinho dos mais espertos que tinha no Inferno, e ao qual prometeu mundos e fundos, se lhe trouxesse o João Soldado para o Inferno.
     Estava  o João sentado à sombra de uma árvore, na sua quinta, quando lhe apareceu um homemzinho muito cumprimentadeiro :
– “Como passou o sr. João?”
– “Ainda agora me vês e já sabes o meu nome?!”, respondeu o soldado meio desconfiado com aquele homemzinho esquisito e feio.
– “Tens má cara para santo”, continuou o soldado,” mas se queres uma pinga anda cá beber”.
     O diabinho , muito esperto, respondeu que não queria beber e convidou o João para que o acompanhasse.
– “Mas para onde me queres tu levar? Olha que eu servi o rei durante vinte e quatro anos por um pão e quatro vinténs, e não tenho medo de ti. Se é para o inferno que me queres levar, deixa que vá arranjar provisões para a viagem. Olha, essa figueira tem bons frutos, come enquanto eu vou buscar o que preciso.”
     E o diabinho, cada vez mais contente, saltou para a figueira a saborear os figos grandes.
     Quando o soldado voltou, trazia consigo o bornal e logo disse:
- “Salta já para o meu bornal!”
     O diabinho bem lhe prometeu mundos e fundos mas teve que entrar no bornal. Levou uma valente sova e foi queixar-se e chorar, com o rabo entre as pernas, para o Inferno, berrando  que metia dó.
     O Diabo esperava-o indignado por não ter cumprido a tarefa, e vociferou infernalmente contra o diabinho, por se ter deixado apanhar como um parvo, pelo soldado que assim zombava do seu poder.
– “Quem vai agora buscá-lo sou eu”, disse, muito soberbo o Diabo para o diabinho, que estava todo encolhido a um canto do inferno, muito dorido e chorando.
     Estava o João a jantar, muito satisfeito, quando bateram à porta  com força tal que tudo estremeceu.
– “Há-de ser o Diabo”, disse o soldado. “Já cá o esperava depois da sova que dei ao outro”.
     E assim foi.
     O Diabo entrou de rompante. Os olhos faiscavam raios de lume e cheio de raiva disse:
– “Vais pagar tudo o que fizeste ao meu enviado!”
– “Se vens para cá com essas palavras, vais pelo mesmo caminho do teu diabinho”, disse o soldado, pondo o bornal a jeito.
– “Isso é que vamos vêr. Desta vez levo-te para as profundezas do meu reino, como o mais refinado patife cá deste mundo.”
– “Olha eu não tenho medo, meu grande Diabo. Servi o rei durante vinte e quatro anos por um pão e quatro vinténs!”
     O Diabo, cada vez mais furioso,  ia a deitar as suas garras ao soldado, quando este, dando um pulo para traz, abriu o bornal em frente ao Diabo, e gritou:
– “Já para dentro do bornal!”
     Ouviu se um grande rugido, que o Diabo soltou de dentro do bornal e debatendo-se furiosamente dava pulos até ao teto, enquanto  o soldado armado com um pau dava pauladas ao Diabo até o deixar quase morto, e a pedir humildemente por todos os diabos que o deixasse ir para o Inferno.
– “Ah! Já pedes misericórdia! Pois vai para o Inferno!” e o João abriu o bornal de onde saiu o Diabo todo partido, de cauda escorrida, mal se podendo arrastar.
     Quando o Diabo chegou ao Inferno ia em tal estado que os diabinhos ficaram aterrados e todos se uniram cheios de medo à espera das ordens do Diabo. Ele então ordenou que forjassem grossas trancas de ferro e fabricassem grandes ferrolhos para trancar as portas do Inferno, com medo que o João soldado lá entrasse.
     Entretanto o João soldado viveu a sua vida de excessos e morreu. Foi parar ao Inferno. Os diabos assim que o viram começaram a gritar:
- “Fechem tudo, fechem as portas e os postigos ou seremos todos batidos!”Assim fizeram e o soldado não pôde entrar no Inferno. 
     Foi então bater às portas do Céu. S. Pedro assim que o viu disse:
- “Vens enganado. Não entras aqui. Não te lembras da má vida que levaste?”
– “ Sr. Porteiro, então um soldado que serviu o rei durante vinte e quatro anos por um pão e quatro vinténs, não pode entrar no Céu?”
     S. Pedro teimou e o João soldado, sem respeitar as barbas brancas de S. Pedro ameaçou metê-lo dentro do bornal.
– “Olha que foi a meu pedido que o Senhor te deu esse bornal e tu não te deves servir dele contra mim.”
– “Para as ocasiões é que ele serve”, disse o soldado, “e agora é uma boa ocasião. Ou me deixas entrar, ou vais para dentro do bornal!”.
     E, como S. Pedro ía  fechar o postigo, sem lhe dar tempo para mais discussões, o soldado gritou:
– “Já para dentro do bornal!”
     S. Pedro  viu-se preso dentro do bornal e o João  soldado dentro do céu.
– “Tira-me daqui” - gritava S.Pedro. “Olha que entra toda a gente!”
     Assim entrou no Céu o João Soldado que serviu o rei durante  vinte quatro anos por um pão e quatro vinténs.


Maria Luís Koen






quinta-feira, 2 de julho de 2020


Memórias da aldeia

3.  A casa da tia 




          Um dia já não ficámos no sobrado escuro, nem na casa com lajes cinzentas de pedra. Ficámos mais abaixo, na casa da tia.
           A casa era grande, com dois pisos e duas portas de entrada: uma na rua da casa velha, outra na rua paralela. Ambas davam para o largo do poço por baixo da casa.
        Quando entrava pela porta da rua da casa velha, havia uma sala, grande, com janela. À esquerda dessa sala um outro quarto, onde era antes o café. À direita, uma porta que dava para a varanda. Em frente da sala, um corredor, que nos levava à cozinha grande, de aldeia, com a lareira e o sítio certo para os potes com pedrinhas brancas, cheios de água que se fora buscar ao campo, onde a água era pura. A cantareira tinha três ou quatro potes, alguns pedrados, cheios de água fresca, que se bebia com um púcaro. Os potes eram sempre muito bem esfregados e lavados antes de serem novamente cheios com água. Para além dos potes, havia os pratos, alinhados e sempre à mão.
         Da cozinha podíamos ir para a varanda larga e alta, que dava para o largo. Aí havia alguns vasos com plantas e muito espaço. Também podíamos subir as escadas de madeira e ter acesso ao andar de cima, com quartos – o sobrado, mas com janelas. Ou podíamos sair para a rua, paralela à da casa velha. Bastava descer dois degraus e lá estava a Micaela, que é de quem me lembro mais. Subindo essa rua íamos para a horta. Das pessoas que aí moravam, não tenho memória.
           Não havia eletricidade. 
        Depois do jantar, no Inverno ou no Outono, sentados nas pequenas cadeiras de vime, ao lume de chão, havia conversas e contos. Contos que o avô gostava de contar. Aqui, na casa da tia, lá na casa velha ou ainda na outra, para onde, mais tarde, passámos a estar. Em todas havia a lareira, o lume de chão e os contos. O avô gostava de contar e nós de ouvir. O conto do João Soldado que meteu o diabo num saco,  era o meu favorito. Conto demorado mas que enfeitiçava quem ouvia...

     “Era uma vez um soldado, chamado João,  que foi servir a pátria. Ao fim de vinte e quatro anos ganhou quatro vinténs e um pão... "


Maria Luís Koen





Memórias da Aldeia


2. A Horta

     Deixando a aldeia para trás, caminhava-se um bom bocado, mas havia sempre o contentamento de ver os bichos na pocilga, esfomeados, a grunhir. Geralmente eram dois. Espreitar lá para dentro era sempre uma aventura. Abria-se o portão de madeira e, ao longe, a pocilga em pedra escura, com dois degraus feitos, também, de pedra mal amanhada. Recordo a alegria de ver os porcos e a tristeza de os ver morrer, mais tarde, aquando da matança.
      No caminho de pedra e pó, até à horta, muitas flores silvestres, muitas “chagas de cristo”, muitos muros de pedra e muitos sons que só ouvimos no campo. Esta era uma terceira paragem porque, muitas vezes, a primeira estava perto da saída da aldeia. Aí, havia um poço e uma nora. Levava-se água  aos animais. Aí, também havia uma espécie de latrina pública. Um nojo, é verdade. Não havia saneamento público e passo à frente este assunto.
     Nessas caminhadas do terreno dos porcos até à horta, havia sempre correria, gritaria, berros com eco e era bom. Muito bom. Aberto o portão da horta, tudo dependia da época...  – mas ...   muitas vezes favas! Favas, muitas favas. O terreno era ligeiramente inclinado e ladeado de oliveiras. Recordo o mar de favas, não sei porquê.  Ao cimo, o palheiro e mais oliveiras, figueiras, ameixas amarelas e escuras, tão doces, tão boas, pêros amarelos.  Muita hortaliça. Na altura da apanha da azeitona, lá íamos, não varejar mas apanhar, sim. Algumas, pelo menos, que éramos primeiro crianças, depois jovens.
     Havia um poço e um tanque, do outro lado do terreno, uma nora, um pequeno riacho que vinha de outra horta acima, com água fresca e transparente e muita coisa para fazer e comer.
     O avô ou a avó cavavam ou colhiam ou semeavam e nós...muita brincadeira com os primos, quando eles estavam.
     Muitos cheiros, intensos, claros.
    No palheiro estava um burro preto. Uma ou duas vezes lá me sentei, em cima do burro, pouco à vontade. Noutras alturas, havia tiro aos pássaros, mas a pontaria era pouca, que me lembre.  Tardes ou manhãs bem passadas, de muita acalmia.
     Recordo com muita saudade essas alturas, essas caminhadas, a ida para a horta com a paragem nos porcos, e a volta com muitas amoras pretas e ar puro  no caminho.
     Os cheiros.

     Enchiam-nos a alma e não sabíamos. 


 (pai na figueira)

 (o burro... o pai e a mana )

 (passarinhos)

(na tapada)

("chagas de cristo")
       

Maria Luís Koen



quarta-feira, 1 de julho de 2020

MEMÓRIAS DA ALDEIA

  
Memórias da Aldeia





(aguarela de Roque Gameiro)



1. A casa velha

        De noite, em casa, não havia luz, não havia movimento, não se pensavam os olhos, não se sentiam as sombras, mesmo que ligeiras. Era mesmo tudo escuro. Uma escuridão estranha, que nos envolvia e nos deixava quedos, quase em torpor. De vez em quando havia um som de madeira a chiar, um som aumentado pela falta de todos os outros sons. Por vezes também se ouvia a madeira a ser comida e aquilo ficava. Ficava o som a embalar, até que o sono nos levava e a manhã aparecia , não com a luz que sempre se espera, mas com o cantar agudo do galo e o cacarejar das galinhas, ao longe. Era sempre assim ali, na casa velha, provavelmente também nas outras casas da aldeia.
         No sobrado não havia janelas, não podíamos ver as estrelas de noite ou a lua, nem o raiar do sol. Era sempre noite escura no sobrado, mesmo quando dia. Descíamos a escada estreita, de madeira, para o rés- do- chão que era a casa, com o chão em lages largas de pedra cinzenta e a porta de madeira maciça com postigo que deixava entrar a luz. Tinha uma cortina, se não me engano. Não havia janela. A casa, em baixo,  tinha também dois quartos: um primeiro, maior,  onde estávamos e comíamos,  um segundo, onde os avós dormiam. A separá-los, uma cortina.
           Tudo passava por ali, pelas portas sempre abertas ou com a chave, a dizer que se podia entrar, nada havia a esconder. Entrava-se e saía-se para os campos. Havia que ir buscar água, com os potes. Havia os animais para tratar, as terras para cavar, a fruta para colher. Parecia tudo simples, então. Sem muitas complicações ou agitação.
           Da casa, rude e de pedra, descia uma rua também em pedra, ladeada de outras casas cujos habitantes pouco lembro. Descíamos para ir comprar rebuçados ao café do lado esquerdo da rua, na casa que era da minha tia. Entrava-se e estava sempre escuro, havia homens a bebericar e a falar. À saída, e na volta para casa, lembro as flores plantadas, muito doces, vermelhas, dos lados das casas,  que chupávamos, e o poial da casa acima, do António e da Maria, que servia de cadeira para conversas cantadas naquela pronúncia, mais à tardinha, no Verão.  À noite ficava-se em casa. Não havia eletricidade e as conversas faziam-se à luz dos candeeiros a petróleo.
          A rua, cujo nome não sei precisar,  descia até ao fim da aldeia, fazendo um ligeiro S, parecendo grande mas, agora, vejo que não. Logo a seguir ao S, havia um largo, pequeno, com um  poço por baixo da  casa da minha tia. O poço tinha um banco. Se ali nos sentássemos, podíamos ver o fim da rua, em frente e à direita, outra, que iria dar à principal, direta à vila. Víamos as portas das casas dos outros, entreabertas, muitas,  e sons que vinham lá de dentro. Pessoas que já não lembro, exceto a Miguela do lado esquerdo e a  Luz, lá mais à frente.
          Se subisse a rua da casa velha, tinha três possibilidades:  dois degraus e lá estava a mercearia, com a balança antiga e o cheiro característico das mercearias de aldeia, o marido ou a mulher de óculos, sempre simpáticos a aviar. Se virasse à esquerda, comprava o pão acabadinho de fazer no forno da aldeia. Ia com a avó e ela nunca trazia só um pão, mas sim cinco ou seis, num bornal de pano, que ficavam guardados algures na casa velha e que davam para muitos dias. Não me lembro de alguma vez ter comido pão duro, ali. Seguindo nessa direção, também podia continuar e sair da aldeia, rumo à vila ou pelo lado oposto, em direção aos campos. Disse que havia três possibilidades. A terceira,  seria virar à direita, se pensar na mercearia como o centro,  quando subia,  vinda da casa velha. Por aí ia muitas vezes com a avó ou o avô, dar alimento aos porcos e em direcão à horta. Outras vezes, quando eles estavam, com os primos.


Maria Luís Koen




(nós os quatro a caminho)